13.1 FICA

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CAPÍTULO TREZE - EU TENHO MEDO DE TER, MAS INVEJO QUEM TEM. E NÃO ACHO QUE ALGUÉM POSSA ME CULPAR.

- Melhor? - Ludmila estava ao meu lado do carro, quando estacionamos na frente de casa. Eu sai do veículo aos tropeços e me apoiei no capô, respirando profundamente.

Por alguns momentos, embalada pela felicidade de ter minha prima por perto, eu havia esquecido que beber demais provocava isso. Ainda mais bebidas as quais eu não estava acostumada, como vinho.

- Sim - respondi-lhe. - Só um pouco tonta.

Ela deu um esfregão de leve em minhas costas e virou o rosto para os meninos, que tiravam as malas de dentro do carro. Tirei as chaves do meu bolso e me ocupei de abrir o portão para eles poderem passar.

- Talles, meu computador! - Mila já estava brigando com o pobre do menino.

Eu estava com eles por menos da metade de um dia e podia ver o quão comum isso era. Devia ser a quinta ou sexta vez que ela lhe passava uma bronca por motivo algum. Desta, porém, ele levantou a cabeça com um sorriso e fez sinal de continência, enquanto jogava suas malas por cima do ombro. Achei que tinha perdido alguma coisa porque não entendi nada ao ver que Mila estava com o mesmo sorriso estúpido.

- Minha mãe já deve estar no bar - anunciei, entrando.

Mila concordou, me seguindo. Ela passou um olhar ansioso pelo quintal e seu sorriso vacilou um pouco, mas se tinha algo para dizer sobre a aparência do lugar, nada disse.

- Acho que temos que passar lá. Vamos só deixar as malas, arrumar um chiclete pra você e ir - deu de ombros.

João estava passando carregando duas malas e ouviu a conversa. Apoiou-as no chão com cuidado e deu um longo suspiro.

- Certeza que vocês não querem descansar um pouco antes? - perguntou. Ouvimos o barulho leve de Talles fechando a mala do carro lá fora.

Ela negou com a cabeça, mas virou o olhar para o portão, onde Talles entrava, lerdamente, carregando mais duas malas.

- Não, acho que não - respondeu. - Podemos descansar quando voltarmos pra casa.

Talles concordou com a cabeça e eu suspeitei que ambos não pareciam dispostos a sequer dormir durante a viagem.

- Bom, então vamos guardar isso aqui - João riu.

Passei na frente deles e segui para a minha casa, abrindo a porta e deixando os rapazes passarem com as malas. Os dois pararam na sala e depositaram as coisas ao lado do sofá, em uma pilha disforme.

- Por que eu tenho que arrumar um chiclete? - perguntei.

Os três riram como se aquela fosse a pergunta mais engraçadinha do mundo e eu percebi que a resposta devia ser algo muito estúpido que eu já deveria ter aprendido àquela altura, mas como eu nunca bebia, talvez tivesse pulado aquela lição.

- Porque se sua mãe achar que eu tô te dando bebidas assim fácil, até parece que nós vamos em algum lugar amanhã. - Mila respondeu. Ao perceber que eu não entendi, continuou: - ele tira o cheiro do álcool ou algo assim. Disfarça que você bebeu.

Eu soltei uma exclamação de surpresa qualquer e os três riram. Talles se jogou contra o sofá com mais uma exclamação de irritação de Mila com o seu comportamento, mas ele pareceu muito confortável, o que era bom, já que ele dormiria ali.

Era provável, até, que estivesse testando se dormiria bem. E parecia satisfeito.

- Onde vocês vão amanhã? - João perguntou, após alguns segundos de silêncio.

Mila sentou-se no braço do sofá ao lado de Talles e ele olhou para ele e, depois, para mim. Deu uma piscadinha e eu ri, percebendo logo o que ele tinha em mente.

- Sei lá. - Talles que respondeu, displicente, dando de ombros. - No Cristo? - concordei.

Tinha certeza que ele sabia todo o resto do itinerário que eu havia planejado, mas preferiu ignorá-lo e puxar Mila do braço do sofá para o seu colo. Ela soltou um grito e deu tapinhas nele enquanto chutava o ar, mas acabaram a pequena briga com um beijinho casto.

- No Pão de Açúcar também - continuei, assim que eles se acalmaram - e pensei em levar vocês no Jardim Botânico no fim da tarde.

Os dois concordaram com a cabeça porque eu havia alertado ambos sobre isso no dia anterior, via mensagem de voz no whatsapp. Era sexta-feira antes do carnaval e se eles queriam fazer um tour básico, era a única chance, visto que eles pareciam mais interessados em curtir a festa.

- Vamos ter que sair cedo, então? - Mila perguntou.

Ela fez uma careta preguiçosa ao que todos rimos. Talles apertou o abraço ao redor dela e eu comecei a me sentir desconfortável com a intimidade entre os dois.

- Se vocês quiserem carona outra vez - João sugeriu.

Eu congelei na mesma hora. Outro dia sem eu conseguir colocar meus pensamentos em ordem sobre o João e com Mila fazendo suas gracinhas para cima de mim, eu não sabia se aguentaria.

Ainda estava tentando voltar a respirar normalmente na presença dele desde que Mila o apresentara a Talles como meu namorado.

- Ah, por favor. - Mila pareceu muito contente com a sugestão. - Talles dirigindo é um maníaco.

- Ei! - Talles reclamou.

Eu estava em dúvidas se era verdade, mas como Mila me contara que Talles costumava correr em corridas de carro clandestinas na cidade em que estudavam, acabei não ponderando. Embora eu tivesse a ligeira impressão de que Mila estava pedindo por João mais para mantê-lo no grupo, comigo, do que por qualquer outro motivo.

E por mais que me deixasse nervosa e suas piadinhas me tirassem o foco, eu estava um pouquinho, bem pouquinho, agradecida.

- Mas você não sabe dirigir no Rio de Janeiro de qualquer forma - ela ponderou.

Talles estalou os lábios, conformado.

- Isso é verdade - cedeu.

JP riu, provavelmente da dinâmica dos dois, que também me divertia. Bom, ao menos quando eles não estavam me constrangendo ou coisa assim

- Então estamos combinados - anunciou, piscando-me o olho. - Vamos?

Os dois levantaram para ir ao bar e eu deixei-me sorrir, meio amarelo de nervoso. De alguma forma, eu estava notando que eu não teria minhas duas semanas sem JP para pensar. Da maneira que estava indo, parecia que eu teria overdose de JP enquanto minhas visitas estivessem por ali.

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