12.3 CONVERSAS

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- Então, o que você faz da vida? - Talles estava tentando manter uma conversa saudável comigo enquanto Drica e Mila tiravam fotos no mirante e nós dois permanecíamos à mesa, esperando a comida.

Drica me fizera dirigir até Botafogo para almoçarmos na praça de alimentação do Botafogo Praia Shopping (também conhecido como Botafogo Escada Shopping pela quantidade de andares e escadas rolantes nele) e nós brigáramos por uma das mesas do lado de fora - e tudo com o que eu me preocupava era como eu ia pagar aquele almoço e o estacionamento, mesmo com uma das vistas mais bonitas do Rio.

Dali, dava para ver a orla de Botafogo e o Pão de Açúcar - motivo pelo qual Drica e Mila estavam tão esforçadas em tirar uma foto em que aparecessem as duas e o morro, além de, se fosso possível, dar para ver um bondinho, o que era basicamente impossível, exceto se você aumentasse a foto em umas 3 mil vezes, mas eu não quis acabar com o sonho daquelas duas.

Embora estivéssemos conversando sobre a viagem e o que ele estava achando do Rio - era sua segunda visita à cidade, a anterior tendo sido há dois anos atrás, um ano antes de começar a namorar com Mila -, eu deveria ter percebido que a pergunta viria. Sempre era tópico de conversa e visto que eu não tinha cara de quem estudava mais, é claro que aconteceria.

- Me formei em jornalismo tem pouco tempo, aí voltei pro Rio e tô procurando emprego - respondi, da forma mais verdadeira que eu podia. Ele não precisava saber que tinha mais de um ano que eu me formara e que eu estava procurando emprego há metade dele.

- Legal - disse. - Você devia falar sobre isso com Mila.

Não entendi lhufas porque eu deveria falar sobre isso com Mila, mas concordei com a cabeça, sem saber o que fazer.

- Claro - respondi. - E você? O que você faz?

- Eu corro - e, então, fez careta, como se essa não fosse a resposta certa. - Tô me formando em agronomia esse semestre. Aí devo cuidar da fazenda do meu pai.

Ah, certo. Eu pensei. Mila arrumou um cara do naipe dela, como era esperado. O cara devia nadar nos bois e nas vacas de dinheiro. Completamente normal.

Mila se aproximou e se jogou na cadeira ao lado de Talles com um sorriso arteiro contido em minha direção, ao que ele cerrou os olhos para ela e em minha direção. Embora estivesse sendo educado, aquele olhar me dizia claramente que ele ficara sabendo de nossa aventura do passado e o sorriso de Mila informava que ela estava usando isso para irritá-lo. Coitado.

- Minha amiga não vai poder vir hoje, parece que ela está presa no hotel por algum motivo - ela anunciou. Talles riu e revirou os olhos.

- Uma pena. O João podia... - nunca cheguei a saber o que eu podia porque Drica se aproximou da mesa com o celular e ele olhou para ela com uma expressão meio embasbacada. - Seu cabelo é mesmo muito bonito - ele lhe disse, ao que Drica riu, dando de ombros e sentando-se ao meu lado. Passei o braço ao redor de sua cadeira de forma displicente, mas que Talles percebeu e resolveu se explicar. - Eu vivo dizendo que a Mila deveria parar de alisar o cabelo porque eu gosto dos cachos dela, mas ela...

- Meu cabelo não fica assim! - Mila estava indignada. - Ele fica uma coisa disforme e ridícula.

Drica e eu nos encaramos enquanto eles entravam em uma discussão hilária e acabamos caindo na gargalhada. Escorreguei e encostei minha cabeça no ombro de Drica, quase abraçando-a e ela levou uma de suas mãos à minha nuca, acariciando-a levemente, me fazendo fechar os olhos e desejar dormir assim por toda eternidade. O cansaço das poucas horas de sono me abateu, mas eu só respirei fundo e levantei a cabeça para vê-la me encarando com um sorriso. Levantei a cabeça apenas um pouco e grudei nossos lábios.

- Ah, mas eles não são adoráveis? - Mila exclamou, o que fez Drica fugir de meus lábios e disfarçar, arrumando os enfeites sobre a mesa.

Talles olhou de Mila para mim, nós dois com sorrisos estúpidos e, então, para Drica agindo de forma estranha e finalmente entendeu o que estava acontecendo, caindo na gargalhada.

- Você é má - ele disse para ela.

Antes que olhar zangado de Mila para Talles virasse uma discussão, porém, a comida chegou e, de estômago ocupado, éramos todos muito mais alegres.

A refeição deliciosa com a brisa marítima, a companhia agradável e a vista maravilhosa fez a tarde ainda mais divertida. Talles e Mila estavam bastante animados com o Rio e deram trabalho à Drica ao demorar a terem vontade de sair dali. A tia Marta já devia estar arrancando os cabelos e dando cambalhotas quando o Sol começou a se pôr e nós finalmente nos levantamos do restaurante para irmos embora.

Despreocupadas, Drica e Mila foram ao banheiro quando pedimos a conta. Os três tinham bebido vinho e eu tinha certeza que Drica era a que estava mais alta, mas todos estavam rindo a toa. Eu, não, porque iria dirigir.

Ao que o garçom pôs a conta na mesa, eu e Talles colocamos nossas mãos sobre ela e ele, rindo, puxou-a para si.

- Ei! - reclamei.

- Ah, para - continuava rindo. - Vai catar coquinho.

Fiquei reclamando e quando Mila e Drica voltarem, contei para ela como se ela fosse sua responsável e nós tivéssemos brigado no jardim de infância.

- Ah, mas claro - ela disse. - Você está dirigindo pra gente, tem que pelos menos almoçar às nossas custas.

- Mas vocês são visitas... - ponderei.

Drica levantou a mão e apontou em minha direção, cerrando os olhos. Ela estava bem altinha e bem soltinha e era bom que ela se recuperasse antes que a mãe pusesse os olhos nela ou podia até sobrar para mim.

- Minhas visitas - Drica reclamou. - Minhas! - repetiu, antes de cair na gargalhada.

Talles e Mila a acompanharam sem que eu sequer entendesse qual tinha sido a piada.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!