12.2 PRIMA

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Logo após isso, chegamos ao ponto onde as quatro vias se afunilavam em uma e meia por conta de um caminhão de porte pequeno e bastante enferrujado que derramara um monte de material de construção ao tombar. Havia uma area com o reboque, dois carros policiais e uma ambulância, mas logo depois disso, o trânsito fluía tão gostosamente que nem parecia que estávamos na avenida que estávamos.

- Os carros todos ficaram lá trás - Drica me disse, quando externei meus pensamentos para explicar o tamanho do sorriso idiota em meu rosto.

Ela tinha razão, então dei uma acelerada sutil antes que todos saíssem e nos alcançassem. Naquela altura, já nos faltava pouco para chegar ao aeroporto e o tempo também tinha ficado curto. Era quase meio-dia e nós estávamos desembarcando no centro.

O centro do Rio é famoso pelos seus prédios históricos, patrimônios tombados e centenas de opções culturais, de lazer e de compras (Como o Saara, o melhor amigo do Natal, das compras escolares ou qualquer coisa do tipo do pobre). Também, como qualquer centro de uma grande cidade, é cheio de prédios comerciais e pessoas correndo de um lado para o outro.

No coração do centro da Cidade, fica o Santos Dummont, um aeroporto pequeno para os padrões, simpático e que, usualmente, recebe a ponte aérea São Paulo-Rio de Janeiro. Com alguma sorte e se você pesquisar e escolher bem, você conseguia um vôo de outro lugar que desembarque ali. Fora isso, era muito provável que você acabasse no fim do mundo do aeroporto internacional Tom Jobim, o Galeão, que ficava basicamente longe de quase tudo e não era tão provido de transporte público como o Santos Dummont.

Parei na frente do aeroporto para Drica descer e ela me atropelou algumas instruções antes de sair correndo para dentro do aeroporto porque faltavam apenas dez minutos para a hora que a prima havia lhe informado. Quando estacionei o carro, meu celular apitou.

"O voo tá atrasado" e anexado, estava uma foto do painel que indicava que o vôo de Brasília tinha uma previsão de chegada em cerca de vinte minutos.

Travei as portas do carro e espreguicei-me, esticando as pernas, antes de começar a caminhar lentamente para a entrada do aeroporto. Com a foto de Drica mostrando uma das lanchonetes do desembarque atrás do painel, não precisei perguntar aonde ela estava, apenas me encaminhei até lá e olhei ao redor, encontrando-a sentada em um banquinho e encarando o painel como se os números fossem se alterar magicamente.

Quando alcancei-a e levantei meu olhar para o painel, a previsão de chegada estava em cinco minutos e Drica não conseguia conter a ansiedade.

- Quer comer alguma coisa? - perguntei. - Eles ainda vão demorar pegando as malas e tudo mais.

Drica negou veementemente e embora eu estivesse morrendo de fome, sentei ao meu lado e arrisquei passar meu braço pela sua cintura. Ela estremeceu e virou o olhar para mim, mas não se afastou.

- Nós... Podemos comer quando eles chegarem - disse. - Eu não comi nada hoje, mas não acho que consigo comer agora - ela mordeu o lábio com sua confissão e eu balancei a cabeça negativamente para ela.

Ela suspirou e se apoiou em mim, encostando a cabeça em meu ombro e me deixando suspirar como um idiota por seu gesto tranquilo. Por mais que isso; por ela estar me usando para se sentir mais calma com todo o nervosismo que a assolava com a chegada da prima. Isso era, sem dúvidas, um avanço e tanto.

- Ei. Sabe uma maneira de fazer o tempo passar mais rápido? - perguntei.

Drica olhou-me, curiosa e eu a beijei, sem deixá-la perceber que era isso que eu estava planejando. Incerta, senti suas mãos em meus ombros, mas ela correspondeu meu beijo com certeza. À díspar da nossa falta de malas, qualquer pessoa que nos visse não nos julgaria; o primeiro pensamento sempre seria nos classificar como um desses casais de ponte-aérea se unindo no feriado prolongado do carnaval.

Nossa sessão de beijos foi doce e sutil, muito leve comparada à da noite anterior. Quando nos separamos por Drica dar um pulo de susto, eu estava com o maior sorriso que cabia em meu rosto e ela me acompanhou, antes de erguer o celular em suas mão e perceber que ele estava tocando.

Levantou-se em um pulo e passou o olhar ao redor e eu soube que ela havia encontrado o que procurava sem precisar atender o telefone porque o seu rosto demonstrou alívio e ela abriu um sorriso nervoso, ao mesmo tempo que sua expressão parecia beirar o choro.

Acompanhei seu olhar e reconheci Mila imediatamente, tal como eu me lembrava. Linda como ela era, quase uma versão de Drica crescida e desbotada, embora diferenças pudessem ser vistas aqui e ali.

Drica saiu correndo em direção à Mila e Mila saiu correndo em direção à Drica e as duas trombaram no meio do caminho ao som de risadas e soluços. Fui atrás delas calmamente, não me surpreendendo ao encontrar lágrimas nas duas quando as alcancei.

- Esse... - Drica quase não conseguia falar. Respirou fundo e olhou em minha direção, antes de voltar o olhar para Mila, apontando para mim. - O João. Você deve lembrar dele.

Mila me lançou um olhar esperto e balançou a cabeça, se aproximando. Deixou um beijo em meu rosto, tal como eu no seu.

- Claro - disse. - Oi, João, quanto tempo!

- Ei, Milinha, você não disse que sua prima era uma você negra! - um rapaz pardo de cabelos curtos se aproximou, carregando um carrinho de malas.

Mila riu e deixou-se envolver pelos braços dele, os dois se beijaram de um jeito simples e rápido, mas parecia tão intenso que quase me deixou envergonhado de estar olhando.

Sem querer, reparei que Mila estava com as bochechas coradas, ambos estavam com os cabelos desgrenhados e as roupas amassadas de uma maneira que uma viagem de duas ou três horas não faria, mas com certeza uma foda rápida no banheiro do avião deixaria aqueles rastros.

Inacreditável. A casta Mila transando em um banheiro de avião.

- Pra quê? - Mila riu. - Pra você me trocar por ela, é? - o rapaz gargalhou, ainda com os braços territorialmente postados ao redor dela. - Gente, esse é o Talles. Essa é a Drica, minha prima, e o namorado dela, o João.

Tenho certeza que se fosse possível, Drica estaria da cor de um tomate, mas ela apenas arregalou os olhos e abaixou a cabeça, como o usual. E eu sabia que Mila tinha feito de propósito para lhe constranger quando ela sorriu abertamente e me piscou um olho.

Mas o que me fez estufar o peito? Drica não pareceu nem um pouco disposta a corrigir a prima.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!