12.1 CARRO

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CAPÍTULO DOZE - AS PESSOAS CONSEGUEM TRANSAR NO BANHEIRO DO AVIÃO E EU NUNCA VOU DESCOBRIR COMO

Quando me afastei dos lábios de Drica, cedo demais para minha vontade, mas em um tempo razoável para a apreciação dos olhos de sua mãe, ela rapidamente abaixou a cabeça e manteve os olhos em seus pés, o que me fez fechar os olhos e suspirar, balançando a cabeça negativamente.

Como eu esperava, Drica estava enfiada em vergonha e na mesma vergonha que demonstrara por parte da noite anterior. Agora, ali, parecia ainda mais acentuada, ela não estava desviando apenas o olhar e fugindo de mim, ela sequer parecia querer estar ali e nem ao menos levantava a cabeça para me olhar.

Eu sabia o motivo, porém. Era obviamente minha culpa e eu não a deixaria escapar porque eu a havia assustado, então passei um de meus braços em sua cintura, fazendo com que ela arregalasse os olhos e segurei seu queixo para obrigá-la a sustentar seu olhar no meu, sem que ela o deslizasse para longe.

- Tudo bem? - perguntei.

Ela me encarou com seus olhos arregalados e delineados, claramente tentando entender o que estava acontecendo. Sem conseguir esconder que estava assustada, embora eu pudesse ver que estava se esforçando, ela acabou por balançar levemente a cabeça, de forma positiva, apertando os lábios em nervosismo.

- Tudo bem? - repetiu minha pergunta, seus olhos, agora, em cima de mim, como uma águia, se embebendo de minha expressão e me avaliando cada vez mais, como se tencionasse descobrir por si mesma, caso eu mentisse.

Pela sua reação clara, eu sabia que ela estava tentando descobrir se eu não estava irritado por ela ter me deixado na mão no dia anterior. Queria saber o que sua fuga desesperada e quase semi-nua havia causado entre nós dois e eu tinha que lhe deixar saber que estava ok, ou talvez eu não fosse mais capaz de alcançá-la.

- Sempre, linda - sorriu-lhe e capturei seus lábios mais uma vez, só por um segundo.

Ela finalmente demonstrou algum vestígio de tranquilidade quando arriscou sorrir de volta para mim, uma versão tímida e um pouco insegura do seu sorriso usual, mas ainda era alguma coisa. Com menos trabalho para ser feito pelo caminho, eu afaguei sua cintura, deslizando para o seu lado, uma mão posicionada no meio de suas coisas, e a guiei até a porta do carona, abrindo para ela e deixando-a tomar seu lugar.

Enquanto ela se ajeitava, abri o portão do carro e voltei-me para dentro do mesmo, dando a partida e guiando-o para fora, enquanto Drica enrolava alguns de seus dedos em seus cachos, confusa e desajeitada, fazendo com que um sorriso idiota brotasse em meu rosto.

Antes que eu pudesse sair do carro e fechar o portão, tia Marta apareceu e nos acenou.

- Deixa comigo! - gritou, lá de fora. - Cuidado na estrada, crianças. E usem o cinto!

Puxei meu cinto imediatamente, mostrando para ela do vidro, que riu. Mães eram iguais em qualquer lugar e a minha sempre me alertava sobre isso antes de eu sair com o carro. Percebi Drica revirando os olhos pelo retrovisor e ri abertamente, ao ver que ela estava imitando o meu gesto.

Nossas mãos roçaram por um momento, enquanto encaixavamos o pino de nossos cintos. Sorri, enlaçando a minha com a dela. Tímida, ela levantou seu olhar e arriscou mais um dos seus sorrisos incertos, antes da magia do toque se encerrar e ela virar o rosto para a janela.

Respirei fundo e dei a partida na nossa pequena viagem, logo tomando o caminho de uma das vias mais complicadas da cidade, e sem dúvidas a maior.

A Avenida Brasil cortava a cidade de ponta a ponta. Começava no momento em que Itaguaí virava Rio de Janeiro e terminava ao desembarcar no centro da cidade, quase na Baía de Guanabara e apenas algumas centenas de metros das barcas que levavam à Niterói. Tão vasta, era caminho certo de grande parte dos trabalhadores, em ônibus ou carros, além de milhares de caminhões que estavam de passagem pela cidade maravilhosa.

Eu tinha certeza que não era só para mim que aquilo parecia completamente inviável e como uma bomba cheia de pólvora pronta para estourar. Adicionando à equação ao fato de que só existia aquele caminho para ser feito de carro - o outro era cruzado pelos trens da Supervia -, o fracasso do experimento era certo.

Acho que não houvera uma única vez que eu passara pela Avnida Brasil sem encontrar um acidente e um ligeiro (ou imenso) engarrafamento por causa dele, sendo porque ele aconteceu no meio da pista central ou porque as pessoas curiosas diminuíam sua velocidade para olhar. Ou um engarrafamento sem motivo algum. Uma vez, eu passei por ela às duas da manhã e encontrei um engarrafamento na altura (sempre ali) de Bonsucesso. Achei simplesmente impressionante, até tirei foto e mandei para minha mãe.

Como de praxe, em Bonsucesso, na altura da entrada da Ilha e do retorno para a Linha Amarela, nós paramos em um pequeno engarrafamento, embora não fosse mais o horário de pico. Com o carro andando lentamente, me pude permitir arriscar algumas olhadas para Drica, que se concentrava em não olhar para mim.

Eu amava aquela forma com que ela parecia completamente envergonhada e desajeitada por minha causa, mesmo que isso levasse as coisas em um tom ainda mais lento. Quando mais assustada ela parecia, mais eu tinha certeza de que aquilo tudo parecia importante para ela e eu me aquecia por dentro.

- Dri... - Chamei-a, quando o silêncio e a lerdeza do trânsito não pôde mais me conter. Ela virou o rosto para mim, mas não parecia muito contente com o fato. Apoiou a cabeça, de lado, no banco e permaneceu assim. - Eu disse: está tudo bem.

Virei meu rosto para olhá-la e ela pareceu confusa com minhas palavras fora de hora. Sem uma explicação melhor, ela não iria entender. Respirei fundo quando o carro da frente deu uma andadinha e eu o segui de perto, sem conseguir me conter para sair logo daquele buraco.

- Quero dizer... Se você não quiser avançar, está tudo bem - garanti-lhe. - Eu disse, você é livre. A gente faz o que você quiser, quando você quiser. Você não precisa correr quando não quiser. É só dizer. Está bem?

Olhei para ela por um momento e eu só consegui ter um vislumbre dos seus olhos marejados antes dela olhar para a sua janela novamente. Quando achei que a conversa tinha acabado, sua voz ligeiramente trêmula e bastante fraca me alcançou:

- Obrigada.

E mesmo que ela não tivesse dito mais nada, eu podia ver que parecia devidamente mais relaxada.

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