11.3 SOCORRO

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- Co-como assim, mãe? - gaguejei.

Eu defitinivamente não estava pronta para ver ou falar com o JP ainda. Eu mal conseguira lhe mandar um Oi por mensagem e só o fizera porque eu lhe prometera.

Mas ficar dentro de um carro por mais de uma hora (de novo) sozinha com ele (de novo!) não era exatamente o que eu tinha em mente. Eu pretendia fugir dele por, pelo menos, duas semanas.

O que eu faria agora? Ainda dava tempo de eu fingir que estava com dengue e permanecer na minha caminha?

- Falei com a Sônia ontem à noite.

Fechei os olhos de nervoso porque eu tinha esquecido que minha mãe e a mãe de JP e Pepê eram amigas. E claro que eram, minha mãe fizera questão de estar bem perto dela quando ela fora a primeira-dama da favela. Impressionante fora quando tudo desmoronou e elas permaneceram amigas.

- Ela disse que o João estaria livre e disse que iria falar com ele se podia - continuou. - Confirmou agora de manhã. Então você pode dormir mais um pouco e se arrumar com calma. Marcamos com ele às onze.

Ela sorriu como se tivesse feito a melhor coisa do mundo e eu realmente achava que ela estava contente com aquilo. Minha mãe já havia me empurrado para um ou outro garoto com quem ela achava que eu poderia me sair melhor, normalmente os certinhos e inteligentes ou aqueles que tinham uma situação financeira melhor, sem estarem exatamente envolvidos com o tráfico, mas era a primeira vez que ela se esforçava tanto.

E eu realmente desejava que ela não o fizesse. Principalmente agora.

- Às onze? - eu repeti a informação com a voz aguda demais, em pânico.

Pânico. Com certeza era a palavra certa para o momento.

Respirei fundo, tentando não desejar a morte lenta e dolorosa da minha mãe. Por que ela tinha que fazer aquelas coisas? Eu tinha certeza absoluta que ela tinha a única e exclusiva função de me meter em furadas e me envergonhar na frente das pessoas. Não era possível!

- Sim, às onze - disse, me olhando como se fosse eu a ter um problema mental. - Pode dormir mais ou fazer o que quiser, mas esteja pronta, sim? Tenho que ir trabalhar.

Ai, mãe, por quê?

Fiquei encarando a porta fechada do meu quarto quando ela saiu, esperando que ela fosse voltar a qualquer momento e falar que era uma brincadeira ou que JP tinha desmarcado, mas não aconteceu. Acabei me jogando de volta à cama e encarando o teto, tentando controlar minha respiração e não entrar em pânico. Cela estava mais em pânico que eu, não iria me ajudar - no máximo, rir da minha cara por eu não conseguir continuar fugindo, visto que ela não concordara com a minha atitude - e Mila, será que já estava no avião? Por precaução, decidi não incomodá-la, mas peguei meu celular, pensando no que eu poderia fazer para me distrair e não me deixar afundar em nervosismo.

Não foi uma boa ideia.

"Bom dia, Dri. Sua mãe me chamou pra te levar ao aeroporto. Acho que nos vemos logo e podemos conversar. Tudo bem, né?"

Apertei meus olhos ao ler a mensagem de JP. Como ele conseguia ser tão fofo e me fazer ter aqueles negócios na barriga, mesmo que eu estivesse nervosa como o inferno e querendo me jogar do alto do Corcovado para não ter que encontrá-lo?

Não, eu queria responder. Vou dirigir eu mesma e morrer no caminho porque, olhe só!, eu não sei dirigir. Mas, ao invés disso, respondi um simples "Tdb".

Maldição! Levantei-me da cama na certeza de que se eu teria que passar por aquilo, eu ao menos não podia parecer com uma zumbi cheia de orelhas e com o cabelo daquele tamanho porque eu havia passado a noite girando e girando na cama, sem conseguir pregar os olhos.

Eu podia não ser a melhor maquiadora do mundo e não saber exatamente quais as cores eu podia usar para cada situação e nem quais combinavam com o meu tom de pele, mas desde que eu tivera uma péssima experiência com espinhas, eu sabia como esconder marcas indesejadas no meu rosto.

Então, depois de tomar um longo banho e gastar meio pote de creme antifrizz no meu cabelo, gastei alguns longos minutos com a cara no espelho, desmanchando os tons mais escuros e tentando disfarçar o inchaço ao redor de meu olho com uma maquiagem razoavelmente boa. Cela ficaria orgulhosa do meu trabalho final.

Porém, no momento, tudo o que eu conseguia era fazer uma cara feia para o relógio, que parecia disposto a correr para a hora da minha morte.

Dez e meia, quando eu estava escolhendo que roupa eu poderia usar, minha mãe entrou no quarto, pronta para brigar comigo, mas engoliu o que tinha para dizer, aprovou que eu estivesse avançadamente arrumada e voltou para o seu trabalho na cozinha.

Escolhi uma saia não muito longa, em um tom entre o rosa bebê e o rosa choque, ao qual eu não sabia nomear. Para acompanhá-la, uma blusa branca com botões no decote e uma sandália marrom clara com um salto meio-termo. Basicamente confortável para uma viagem de carro e também para enfrentar o verão carioca pelos poucos minutos que eu ficaria no exterior, sem ar-condicionado.

Faltavam dez minutos para às onze horas quando a campainha tocou e eu engoli o medo e o choro e me encarei no espelho pela última vez. Pouco depois, ouvi o barulho do motor do carro enquanto JP, provavelmente, fazia uma checagem rápida antes de sair com ele. Demorou alguns minutos antes da minha mãe me berrar da cozinha, provavelmente porque ela se distraíra conversando com ele, talvez tentando descobrir o que havia acontecido na noite anterior sem ser da minha boca.

Então, como se eu estivesse indo para a forca, eu desci as escadas lentamente, cada passo me custando uma boa dose da minha coragem. Minha mãe sorriu quando me viu, aprovando meu figurino.

- Liga pra casa quando tiverem chegando preu poder fazer um lanche pra vocês, ok? - alertou-me.

Concordei com a cabeça e caminhei até a entrada da casa, onde eu conseguia ver a cabeça de JP dentro da mini-van, acertando o espelho retrovisor para o seu tamanho. Eu soube que ele conseguiu acertar quando me viu. Pulou para fora do carro e, com um sorriso de lado, se aproximou.

- Oi - disse-me.

- Oi - respondi, com a voz fraquinha.

E pegando-me totalmente desprevenida, grudou seus lábios nos meus.

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