11.2 MÃE

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- Bom dia! - minha mãe entrou em meu quarto como sempre: parecendo ser a dona do lugar.

Empurrei meu celular para debaixo do edredom na esperança que ela não pudesse perceber o movimento e, se o fez, nada disse. Caminhou até a minha cama e se sentou na altura do meu joelho, dando tapinhas em minha perna, enquanto me encerava com um sorriso.

- 'Dia - respondi, coçando os olhos.

Afinal, era melhor parecer que minha cara inchada era porque eu havia acabado de acordar e não porque eu passara metade da noite chorando sem saber o que eu fazia com o fato do cara de quem eu estava gostando e saindo ter descoberto que eu era virgem de uma forma nada agradável ou tradicional.

- Como foi a festa? - perguntou. - Quando eu voltei do bar, você já estava dormindo.

Eu não estava dormindo, mas eu virei de bruços quando percebi a luz do corredor acessa e não me movi pelo longo minuto em que minha mãe abriu a porta do quarto e ficou me olhando.

- Foi legal - disse. - Voltei cedo, como você pediu.

Ela sorriu e pulou mais para perto de mim, me dando um beijo carinhoso na testa que me fez relaxar e sorrir de leve. Achava incrível que minha mãe pudesse ter essas rompantes de "eu sei que você não está bem e vou ser carinhosa com você mesmo que você não queira me contar o que é". Ela nunca me perguntava, também, esperava até que eu me esgueirasse até a cozinha ou o seu quarto e desembuchasse todo o meu nervosismo de uma vez.

- Boa menina - sorriu. - Senti sua falta ontem. Essas meninas novas são desajeitadas demais.

Ri e ela me acompanhou sem cerimônias. Esticou meu edredom nas beiradas e olhou o ao redor do meu quarto, apenas para se certificar que eu o havia arrumado no dia anterior, como prometera, para receber Mila. Não que minha prima não soubesse que eu era vagamente desorganizada e fosse se importar - ela me alertara que Talles, seu namorado, dava mais trabalho para conseguir manter sua organização do que um filhote de cachorro molhado.

- Eu também era desajeitada quando comecei a trabalhar com você, mãe - ainda estávamos rindo quando ela concordou com a cabeça. - Lembra na minha primeira semana? Eu quebrei três copos, derrubei cerveja em um cliente e vivia deixando as porções de batata caírem no chão. Sem contar que eu sempre acabava esquecendo e pegando os salgados com a mão mesmo!

- Você me deixava louca! - ela riu.

E eu estava completamente grata à minha mãe, que mesmo sem saber o que se passava e nem mencionar que percebera que eu não estava bem, estava deixando a conversa leve e engraçada, para me fazer relaxar e rir. E mesmo que meu estômago ainda estivesse embrulhado, eu já me sentia mais leve do que há dez minutos atrás.

- Mas elas quebraram cinco copos no total - continuou. - E uma delas está achando que está trabalhando num bar pornô ou algo assim, porque ficou dando em cima dos clientes e eu juro que vi ela sentada no colo de uns três diferentes - ela revirou os olhos enquanto eu ria. - Teve uma hora que ela sumiu e a outra menina disse que ela estava passando mal e tinha ido ao banheiro, mas acho que ela levou alguém pro depósito.

Desviei os olhos da minha mãe porque eu já tinha feito isso algumas vezes também, mesmo que com sua benção, com JP inclusive. Eu nunca demorava muito, porém, não o suficiente para que ela fosse atrás de mim e bater na porta para checar, mas, mesmo assim, a menção da situação com o seu tom de desaprovação fez com que eu me sentisse um pouco desconfortável.

- Ah, mãe. Deixe elas. Enquanto estiverem ajudando, tudo bem. Quero dizer, é uma droga ter que trabalhar no carnaval.

Minha mãe deu de ombros e fez um biquinho antes de abrir o maior sorriso de todos em minha direção, ao que eu espelhei-a.

- Tem razão. Mas a minha menina vai se divertir esse ano, não vai? - ela pegou meu nariz e eu fiz uma careta, nem um pouco contente com a brincadeira infantil. - Esse trabalho mole de ficar levando parente pra lugares bonitos e blocos de rua, eu queria também!

Enquanto eu ria, meu celular apitou ao meu lado e eu acabei sorrindo nervosamente e colocando minha mão por cima para abafar o tom. Cela, por favor, fique calada por enquanto, sim?

- Vamos! - chamei-a, ao que ela gargalhou.

Minha mãe me deu um sorriso triste e compassivo antes de se aproximar e deixar-me um beijo estalado na bochecha.

- Alguém tem que trabalhar para os jovens poderem se divertir um pouco, de vez em quando - ela se afastou-se, ainda sorrindo.

Sorri-lhe em agradecimento, enquanto ela se levantava da minha cama e ia até a minha cômoda, organizar a pouca bagunça que eu tinha feito na noite anterior, entre a hora que eu arrumara o meu quarto e quando eu saíra para o baile.

- Acho melhor eu começar a me arrumar - espreguicei-me e empurrei minhas pernas para fora da cama, me sentando na beirada. - Você acha que se eu sair daqui umas dez dá tempo de chegar lá na hora, mãe? Mila disse que eles chegam meio dia e meia.

Minha mãe saiu do transe em que estava, organizando minhas coisas e virou-se para me olhar, com algum toque de levadez de criança no rosto.

Oh, não.

- Ah, querida, se você quiser dormir mais um pouco pode - sorriu-me. - Eu não acho agradável você trazer sua prima e o namorado para casa de trem, eles devem estar cheios de mala e tudo mais. Que coisa chata.

Certo. Até aí tudo parecia bem.

- Você vai me levar então? - perguntei.

Minha mãe tinha uma mini-van, embora nós quase não a usássemos porque ela odiava dirigir. Usava para fazer compras porque era a melhor coisa que nós podíamos fazer para trazer todas as coisas do bar para casa, mas fora isso, era muito difícil. Ela ia ao CEASA, que era mais longe de casa, duas ou três vezes por ano porque odiava pegar estrada, embora o preço compensasse, então preferia comprar mais perto de casa.

Eu achava que tinha a ver com como minha tia tinha morrido. Vê-la dirigir através da cidade para buscar Mila no aeroporto não parecia se encaixar com nada.

- Ah, não - ela sorriu. - João vai levar você.

Acho que eu fiquei congelada, olhando para cara dela, por pelo menos dois minutos antes de realmente processar a informação.

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