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CAPÍTULO DEZ - PERDENDO O JOGO AOS QUARENTA E CINCO DO SEGUNDO TEMPO

Drica me disse que não estava nervosa, mas seu corpo me dizia outra coisa. Ela tremia da maneira errada quando minhas mãos deslizavam pelo seu corpo esguio e encontravam ligares interessantes para apertar ou apalpar. Ela se encolhia quando eu a puxava mais para perto e, as vezes, seu beijo gostoso vacilava, como se tivesse irremediavelmente perdida em pensamentos e eu não conseguisse alcançá-la mais.

Tirando esses sinais confusos, tudo corria bem. Drica não parecia desconfortável em minha companhia e seu beijo era surrealmente diferente, por mais que isso soe como alguma bobagem clichê de um filme de romance brega, era o que acontecia ali; havia algo especial no beijo de Drica, que eu não conseguia identificar ou nomear. Era uma doçura sutil e carinhosa, talvez fruto da sua inocência ou de sua vergonha em minha presença, mas, ao mesmo tempo, eu conseguia sentir a carga da experiência que meu irmão me relatara que ela tinha.

Contudo, apesar do meu corpo choramingar contra a minha decisão, eu não poderia ignorar suas ligeiras fugas de meus toques, então parei de beijá-la e apenas envolvi meus braços ao seu redor, no meio das pessoas dançando, e fiquei balançando nossos corpos de um lado para o outro como um bebê sendo embalado, tentando fazê-la relaxar e, ao mesmo tempo, pretendendo conseguir acalmar minha excitação. Eu não iria mais longe com ela dessa maneira, não passando por cima daqueles sinais que demonstravam o quanto ela estava assustada, apenas para me satisfazer. Enquanto eu não a sentisse presente e tranquila... Bom, seriam só beijos.

- Tudo bem? - perguntei, em seu ouvido.

Ela estava com a testa encaixada na curva de meu pescoço e o nariz enfiado na gola da minha camisa, respirando profundamente. Embora não fosse dizer, eu sabia que ela estava grata pela minha pausa compreensiva. Concordou com a cabeça de forma leve e eu continuei a embalá-la. Forçando minha visão, a encontrei de olhos fechados, apenas curtindo o momento de tranquilidade.

Acabei rindo, sem me conter, apenas porque eu sabia que ela estava com algum medo bobo da idade e eu achava isso uma graça. Meu riso, porém, a tirou de seu de seu transe quando ela sentiu meu corpo balançar. Afastou o rosto de meu peito e me encarou com seus olhos escuros cerrados, me avaliando com a destreza de uma águia.

- O que foi? - perguntou.

Na sua expressão, eu podia ver claramente, sabia que estava prestes a se ofender, mas perguntou mesmo assim. Todavia, eu não encontrei nada diferente para lhe dizer além da verdade, que não era assim de todo ruim, para explicar minhas risadas.

- Você disse que não estava nervosa - pontuei.

Ao invés de ficar nervosa, porém, ela segurou seu próprio riso, com uma expressão de criança que foi pega fazendo besteira, mordendo os lábios. Relaxada com a minha compreensão e envergonhada que ru tivesse percebido seu desconforto apesar de sua mentira, ela deu de ombros.

Então ficou ainda mais claro que sua experiência se limitava aos beijos. O nervosismo que ela aparentava se dava, provavelmente, por eu ser mais velho e por nós estarmos saindo uma segunda vez - fato que eu já ouvira que não era usual dela. E, se dependesse de mim, sairíamos mais e mais vezes.

Suspirei e deixei minhas mãos escorregarem do meio de suas costas para, de volta, sua cintura e dei-lhe um beijo no topo da cabeça para acalmá-la, ouvindo-a suspirar.

O baile estava ficando mais cheio ao passo que nos aproximávamos da décima segunda badalada do relógio. Nosso espaço, no meio da rua, da dança e da confusão, estava ficando cada vez mais limitado e quanto mais ficávamos ali sem nos mover, mas as pessoas pareciam dispostas a nos dar encontrões e esbarrões, fazendo com que eu lhes lançasse olhares zangados e Drica arregalasse os seus, resignada.

Estava claro que não fazia sentido nenhum ficarmos ali mais. Drica não parecia inclinada a me provocar com a sua dança e eu não estava convencido de que poderíamos continuar nos beijando por enquanto sem que ela tivesse uma síncope nervosa.

- Quer sair daqui? - perguntei.

Drica não precisou de mais nenhum incentivo. Como se estivesse apenas esperando para saber o que eu queria, minha pergunta a fez se desenroscar do meu abraço, pegar minha mão com a sua e me puxar em zigue-zague para fora do meio da rua e em direção ao portão da boca. 

Não vimos Pepê nem Cela pelo portão, apenas os guardas armados por ali.

- Não vai não - pedi à Drica, assim que ela foi em direção ao portão da boca, tencionando entrar e checar o que estava acontecendo.

Um pedido idiota, mas que fez Drica sorrir. Não precisei pedir duas vezes e ela nem perguntou meus motivos, apenas voltou aos meus braços, me abraçando apertado. Beijei o topo da sua cabeça e deixei que ela ficasse assim por quanto tempo quisesse.

- Você quer algo pra beber? - perguntei. - Eu acho que tomei sua cerveja toda.

Drica gargalhou. Ali, mais afastados das caixas de som, era possível ouvir e ser ouvido melhor, o que possibilitava uma conversa.

- Era a cerveja da Cela, então tudo bem - ela disse. - Mas você pode me arrumar outra, se quiser.

Sem me conter, passei o braço pelo entorno da sua cintura e a puxei para mais perto, capturando seus lábios por um momento. Parecendo confiar mais em mim agora, vendo que eu parara quando percebera que ela estava nervosa.

- Hm... - mumurei, com meus lábios nos dela - Não sei se vou fornecer bebida pra menor não.

Drica riu e me deu um tapa estalado no ombro, ficando na ponta dos pés para capturar meus lábios mais um momento, para então me empurrar para bem longe, acenando para que eu fosse buscar as bebidas do outro lado da rua. Assim que me afastei dos passos, uma borrão loiro atingiu Drica, vindo do meio da pista de dança e eu admirei Cela pulando descontroladamente ao redor de Drica, parecendo berrar com ela de uma forma alegre e ansiosa.

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