9.2 OLHADA

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Havia uma coisa ou duas que eu gostaria de dizer sobre os bailes da minha comunidade. Eu gostava deles o suficiente para choramingar uma folga para a minha mãe ao menos uma vez por mês para poder aparecer em um. Se eu fosse razoavelmente esforçada, eu poderia conseguir duas ou três folgas em um mês e eu agradecia muito a ela por isso.

Estar em um baile funk é quase certeza que você vai beijar e, normalmente, não um cara só. Em algum momento da noite, está todo mundo dançando tão colado que eventualmente vai acontecer de você beijar alguém com quem você está dançando, mesmo que não tenha trocado uma palavra sequer. Apenas acontecesse.

E havia algo no funk que fazia isso. Ele tinha aquela magia, aquela batida provocante que fazia seu corpo balançar da maneira certa. E aí, as letras iam abaixando o nível, ficando cada vez mais explícitas e os caras iam ficando cada vez mais abusados e era só se deixar levar no meio da multidão.

Eu adorava aquela sensação de que eu, dançando na pista, estava capturando olhares e o desejo de todos os caras ao meu redor. Mesmo que eu nunca tivesse feito, sabe, isso, saber que isso não significava que eu não conseguiria deixar um cara duro, se eu quisesse, só com o meu rebolado e um sorriso me deixava satisfeita.

Desde que Pepê começou a subir pelo tráfico, porém, eu tinha certeza que alguns caras tinham receio de chegar em mim, principalmente quando eu estava na companhia de Cela. Mas isso não os impedia de olhar e me deixava com mais liberdade de escolher quem eu queria, não quem tinha começado a se esfregar em mim primeiro.

Acabei me distraindo dançando e não percebi que Cela estava se aproximando até que ela encostou-se em mim, levando os lábios em minha orelha para se fazer ouvir acima do barulho das caixas de som.

- Desculpa! A gente só estava brincando!

Eu revirei os olhos para ela e balancei minhas mãos no ar e o que eu queria que fosse entendido como "vá se foder", ela entendeu como "não importa".

Permaneceu ali do meu lado, dançando também, e eu resolvi deixar para lá. Não era a primeira vez que Cela e Pepê faziam brincadeiras sem graça com a minha virgindade, embora agora eles estivessem quase me empurrando para JP, acompanhados da minha mãe.

Eu só tinha saído com o cara uma vez! E ok que eu era apaixonada por ele desde os meus doze anos, mas isso não significava que eu daria para ele na primeira oportunidade que eu tivesse, certo?

Balancei a cabeça, sabendo que eu estava pensando nele de novo e em como eu queria que nós ficássemos outra vez, mesmo que o nervosismo de ter isso se repetindo me congelasse.

Conclui que seria muito bom se eu conseguisse encontrar com ele no baile. Eu estava, dessa vez, na minha zona de conforto e talvez soubesse melhor como agir ou reagir na presença dele do que no nosso encontro.

- Você já respondeu o JP? - Cela berrou em meu ouvido, como se estivesse lendo meus pensamentos.

Sem parar de dançar, balancei a cabeça negativamente para ela. Ela revirou os olhos e me deu um empurraozinho de leve, me fazendo rir. Vi-a levantando a sobrancelha pra alguém atrás de mim e o cara que estava se aproximando - eu sentia-o dançando próximo já há alguns minutos - pareceu perder o interesse automaticamente. Não critiquei Cela, contudo. Se ela estava afastando o cara, ou ele era problema ou era feio de doer, e eu normalmente aprovava o seu gosto.

- Como vamos ser irmãs se você fica fugindo dele? - berrou, me abraçando, com a boca em meu ouvido.

Empurrei-a e levantei minhas duas mãos, mostrando que não fazia ideia, enquanto ria. Ela revirou os olhos e me empurrou-me de volta. Dançando, e com o seu empurrão, eu quase me desequilibrei e tive que apoiar minha mão no chão para não cair de bunda.

Isso chamou a atenção dos caras ao meu redor e tive certeza de ouvir um "Uhul, até o chão, novinha!" de incentivo, que apenas me fez rir e olhar ameaçadoramente para Cela.

Cela balançou a cabeça em direção à calçada e ao portão da boca de fumo, onde Pepê estava, ainda com os seus dois guardas e, agora, dividia uma garrafa de cerveja com JP. Senti meu coração acelerar quando, visto que ele estivera olhando para mim, inevitavelmente, nossos olhares se cruzaram.

Dei uma piscadinha para ele e tive certeza que ele percebeu, quando sorriu de lado e tomou um gole da sua cerveja. Queria apenas deixar ele saber que eu estava disposta e se ele quisesse ficar comigo de novo, mesmo que eu o estivesse ignorando desde os nosso beijos na minha rua, era só ele vir até mim.

Cela percebeu minhas intenções e deu um grito histérico que foi ouvido acima da música alta. Então, ela me abraçou apertado, o que foi um pouco nojento, já que estávamos começando a suar com a dança, o calor e a quantidade de gente.

- Irmãs! - comemorou, dando alguns pulinhos e me obrigando a acompanhá-la.

Ela me soltou e olhou de volta para o portão, o que eu não acompanhei, e balançou a cabeça afirmativamente para mim. Mesmo sem trocar uma palavra, eu sabia que ela estava me informando que JP continuava a me olhar.

Com um sorriso esperto, ignorei todas as implicações externas e dei o melhor de mim e da minha dança. Abusei de balançar a bunda e ser provocativa, de costas para ele e o portão, esperando que a confusão de pessoas lhe desse espaço para ver o suficiente.

Cela picou em minha direção, rindo do meu comportamento. No meio do povo, arrumou uma cerveja e me ofereceu um pouco, ao que eu anormalmente aceitei, bebendo do gargalo da garrafa.

Quando fui devolver a ela, não a encontrei em nenhum lugar, estava simplesmente desaparecida. Então, senti mãos grandes envolverem minha cintura e lábios deliciosamente quentes se aproximarem da minha orelha.

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