9.1 BAILE

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CAPÍTULO NOVE - HOJE EU TÔ QUERENDO TE PEGAR DE NOVO

- Você vai ter que acordar cedo amanhã - minha mãe me alertou, enquanto eu calçava minhas sandálias.

Revirei os olhos porque eu acordava "cedo" todos os dias, mesmo trabalhando no bar até duas da manhã, as vezes mais. Teria que buscar Mila no aeroporto, mas o vôo dela só chegava quase na hora do almoço, o que significava que se eu saísse de casa às nove, tudo bem. Então dava para ir ao baile, ficar umas duas horas lá e aí voltar para casa e dormir sem muitos problemas.

- Não vou demorar, mãe - garanti à ela.

Apesar de não parecer satisfeita com a minha saída - e normalmente nunca ficava, mas calava-se com a certeza de que eu ficaria bem com a segurança de Pepê -, ela sorriu e concordou com a cabeça.

- Você tá linda, filha. Vai ver o João?

A pergunta me pegou desprevenida e eu levantei a cabeça da fivela da sandália, sem saber o que responder. Se eu veria o João no baile, provavelmente. Se eu veria o João da maneira que ela estava dando a entender... Achava que não.

- Não sei, mãe - dei uma resposta qualquer, apenas para fugir do assunto, antes que aquilo ficasse constrangedor demais.

Minha resposta esguia, é claro, não impediu minha mãe em insistir no assunto e só de olhar para ela, eu sabia que eu preferiria me esconder embaixo da cama.

- É um bom rapaz, o João - disse. - Gosto dele.

Apressei-me em terminar de afivelar minha sandália e me pus de pé. Cela dissera que passaria para me pegar, mas eu não a esperaria tendo que ouvir aquela conversa.

- Estou indo - anunciei.

E fui caminhando até o portão com suas mais comuns advertências:

- Não volta tarde - parecia enumerá-las, sempre em ordem - Se cuida, não use drogas, se for transar, usa camisinha - epa. Aquela era nova. Normalmente era "Não transe". - E se divirta - nova também.

Fiquei esperando o "Se você for demorar, eu vou na rua te buscar de camisola e te trazer pelos cabelos para casa", mas parecia que ele fora abandonado e substituído pelas duas novas advertências muito mais agradáveis. Tentei não demonstrar minha surpresa ao atravessar o portão.

Cela vinha descendo a rua e acenou quando me viu.

- O que foi? - perguntou, assim que viu minha expressão.

Talvez eu não tivesse conseguido esconder minha surpresa tanto assim e conclui que eu estava para lá de transparente com os meus olhos arregalados e a respiração parecendo que havia corrido uma maratona, só pelo nervoso e a vergonha das palavras da minha mãe.

- Minha mãe - murmurei. - Mandou eu usar camisinha e me divertir. E sem me buscar pelos cabelos se eu demorar.

Cela levantou as sobrancelhas, admirada, e riu.

- Parece que alguém ganhou uma benção - continuou rindo.

Sua brincadeira apenas fez com que eu ficasse ainda mais envergonhada. De alguma forma, eu notei que ela não estava falando que a benção era minha. A benção que minha mãe me oferecera era para JP.

- Vamos! - chamei-a, apressada. - Antes que ela saia de casa pra voltar pro bar e mude de ideia.

Cela gargalhou gostosamente da minha pressa, mas não vacilou enquanto eu a puxava em direção à música que era ouvida, com toda certeza, por todo o Asfalto. Era assim sempre, em dia de baile. Todo final de semana tinha, pelo menos, um, embora alguns fossem menos elaborados que outros. Esse, por ser pré-carnaval, tinha até holofote. Os feixos de luz se afastavam e se cruzavam acima de nossas cabeças e entranhando-se nas nuvens, deixando a localidade da festa ser clara para todos da nossa favela e das próximas também. Todos eram bem-vindos, ainda mais se consumissem nos comércios locais. Mentalmente rezei que as duas ajudantes da minha mãe fossem boas e que tivessem boas vendas essa noite e pelo resto do carnaval.

Mas, ao alcançar o meio da confusão, minhas orações e desejos de boas vendas foram completamente sugadas pela música que tocava às alturas.

O baile estava acontecendo, bem posicionado, em frente à uma das bocas do Asfalto, a maior delas, ao que meu pouco conhecimento dizia. E, claro, encontramos com Pepê bem à frente da boca, olhando o baile com seus olhos de gavião, parecendo cerrá-los ao encontrar algo que não o agradava, mas sem se meter. Apesar de, como quase sempre, estar desarmado, os colegas ao seu lado, quase guarda-costas, estavam com um fuzil cada. Tremi em pavor ao me aproximar junto com Cela e, por esse motivo, ele escolheu me abraçar antes da namorada.

- Mas olhe quem saiu pra derrubar um batalhão inteiro ao pés dela! - riu, envolvendo seus braços ao meu redor. - Tá querendo matar meu irmão do coração, é? Porque ele já tá bem velhinho, o coitado.

Apesar de sem graça com todo mundo achando que estava ok ver JP e eu como um casal, mesmo que só tivéssemos saído uma vez só, eu ri com o elogio.

- Obrigada.

Olhei para baixo, um pouco envergonhada. Eu tinha me arrumado um pouco mais que o normal, confessava que menos do que quando saíra com JP, mas ainda assim mais. E eu queria dizer que não tinha nenhum motivo específico, mas a verdade era que eu esperava que JP aparecesse e eu o impressionasse de alguma forma.

- Amor, você não sabe da maior - Cela tomou meu lugar assim que eu me afastei do abraço de Pepê e ele envolveu-a pela cintura, deixando um beijo com um pouco de dentes em sua bochecha. - Drica recebeu uma advertência sobre usar camisinhas da mãe dela.

Fiquei ainda mais envergonhada e senti minhas bochechas queimarem de vergonha, enquanto Pepê e Cela riam da minha cara.

- Cela! - exclamei.

- Ih, caraca! - Pepê riu.

- Mas não precisa se preocupar, Drica - Cela estava rindo e eu já podia imaginar que não seria algo bom que viria a seguir - JP com certeza tem um bocado dessas na carteira dele.

Ela deu uma piscada em minha direção e eu, envergonhada demais para continuar ali, marchei em direção ao meio do baile, respirando fundo e deixando meu corpo se envolver e se movimentar ao som da batida.

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