8.3 ATRÁS DO PORTÃO

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Entrei no quintal, deixando-a livre para me seguir e falar comigo ou fazer o que quisesse. Como já havia lhe dito, eu não planejava, de forma alguma, prendê-la, embora o seu descaso infantil estivesse me corroendo por dentro, depois de um dia tão frustrante.

Porém, se ela podia ser infantil e me ignorar, eu também podia ser infantil e... Ouvir a conversa delas atrás do portão.

- Você não está fazendo isso com ele - ouvi Cela ralhar com ela.

Fazendo o quê? Perguntei-me. Que ela estava me ignorando, okay, se ela não quisesse continuar com as saídas e tudo mais, eu não me oporia, embora fosse achar uma pena. Mas Cela parecia querer dizer outra coisa, algo que Drica costumava fazer e que ela não acreditava que estivesse fazendo comigo, também.

- Não estou fazendo nada!

A voz de Drica encheu o ambiente, demonstrando que ela estava claramente zangada com a acusação que a amiga lhe fazia.

- Não está é uma figa! Tá fazendo o que você faz com todos os caras! Tá ignorando ele depois que vocês ficaram. Pensei ter ouvido você falar que o encontro foi ótimo e que vocês ficaram e foi muito legal e agora você tá ignorando o cara!

Ouvi Drica soltar um grunhido frustrado e segurei a respiração. Então, ela estava tentando fugir de mim mesmo que eu tivesse deixado tudo nos trinques para isso não acontecer?

- Ele me deixa nervosa, tá? - ouvi-a murmurar. - Eu não sei o que fazer, como agir agora, você sabe que eu nunca me importei assim e... Eu não sei como eu deveria agir. Tá legal? Só me deixa em paz.

Engoli a seco e senti meu coração palpitar. Acabei sorrindo feito um bocó. Ela só estava nervosa e sem saber como reagir depois do nosso encontro... Isso era fofo e adorável. Tive que me controlar para não sair do meu esconderijo e ir beijá-la naquele momento.

- Bom, em primeiro lugar, a regra número um é que você não pode ignorar ele! - Cela berrou de volta.

Apesar de Drica ter dito algo compreensível - ao meu ver -, Cela parecia ainda mais irada com ela por seu comportamento. Acho que eu havia perdido alguma coisa da conversa, ou do passado de Drica, que me fazia entender só metade do que estava acontecendo.

- Eu só preciso de uns dias pra pensar, ok?

As duas pareciam discutir por minha causa e eu estava me sentindo mal por estar ouvindo tudo aquilo. Pensei em ir embora, mas a voz de Cela, continuando a discussão, me prendeu.

- Talvez Pepê não devesse estar preocupado com você e sim com ele. Porque tá na cara quem é que magoa as pessoas por aqui.

Eita. Engoli a seco e segurei a respiração, nervoso pela briga das duas.

Pepê me alertara que Drica era assim, desapegava facilmente dos caras com quem ficava e não se importava em repetir as doses. Visto que eu estava me esforçando em criar um ambiente entre nós dois para que ela se sentisse confortável em ir e vir quando quisesse, eu estava esperando que aquilo continuasse sem muitos problemas, mas também estava preparado se caso ela não quisesse.

Ninguém estava magoando ninguém. Éramos só dois adultos (Bom, quase) em um relacionamento bem resolvido que provavelmente se sairia muito bem sem aqueles dois intrometidos se metendo o tempo todo.

Embora eu não pudesse dizer que também achava adorável que eles se preocupassem comigo e com ela daquela forma e que estivessem acompanhando os avanços do nosso relacionamento capenga com cuidado, como dois gaviões sobrevoando o ninho.

- Cela... - Drica parecia chateada. - Deixa pra lá. Eu tenho que ir trabalhar. As duas meninas começam hoje e eu tenho que ensinar elas.

Talvez eu devesse mandar uma mensagem para Drica dizendo que eu havia escutado e que ela não deveria ficar chateada com Cela, que estava só preocupada com o meu bem estar, enquanto eu estava ok. Só que eu não achava que Drica e Cela ficariam felizes em saber que eu estivera atrás do portão, ouvindo suas conversas.

Mas eu ainda estava querendo abraçar Drica e dizer-lhe que tudo bem, que ela poderia ter o tempo que quisesse para pensar e colocar seus pensamentos em ordem, enquanto estivéssemos por ali.

- Responde ele, sim? - Cela pediu. - Você sabe, se você não fizer, você vai se arrepender e, de verdade, quando isso acontecer, eu vou estar lá e ao invés de ser boazinha e te consolar, eu vou ser malvada e dizer que te avisei.

Drica riu e a tensão se foi quando Cela respondeu. O silêncio me informou que estava tudo bem e, pela fresta entre a parede e o portão, vi que elas se abraçavam, deixando isso claro como cristal. Enquanto elas se despediam, me esgueirei para dentro da casa, tentando não parecer um criminoso. Ainda me sentia um pouco mal por ter escutado a conversa por detrás do portão, mas o silêncio de Drica explicado me acalmou um pouco.

Ela iria me responder, eventualmente, e eu iria esperar pacientemente por isso. Não queria pressioná-la, da mesma forma que eu não queria prendê-la.

Sentei-me no chão da sala com Pepê, enquanto ele me mostrava todos os jogos maneiros que tinha e o ajudava a escolher. Cela entrou em casa e me lançou um sorriso sincero que dizia mais do que queria dizer - e tendo ouvido sua conversa, eu sabia o que era.

Apesar dos meus medos e fracassos e da frustração com Drica e o seu silêncio, mesmo que eu estivesse totalmente disposto a esperar pelo seu tempo certo, eu tive uma noite agradável ao lado do meu irmão e sua namorada, jogando jogos divertidos e gargalhando por qualquer bobagem, comendo pizza e bebendo cerveja despreocupadamente, como se eu fosse um adolescente sem contas para pagar, como aqueles dois.

Acabei dormindo em seu sofá e tive um sonho tranquilo, esquecendo, por algumas horas, de todos os meus problemas e me concentrando nas coisas boas que eu ainda tinha em minha vida.

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