8.2 ESQUISITA

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Mesmo que eu tenha conseguido pegar a volta para casa antes do horário de pico, era estressante de qualquer forma. Parecia que faziam para nos tirar do sério, o metrô ia mais devagar quando queria, o trem parava em estações fantasmas apenas para dificultar.

Perdi momentos preciosos da minha vida, sentado em um banco chato, segurando um ferro à minha frente, quando vendedores iam e vinha, oferecendo as mais variadas promoções imperdíveis, coisas que você só encontrava nos trens, mesmo.

Embora não estivesse com muito dinheiro, não resisti e comprei uma caixa de Ferrero Rocher, das grandes, por apenas quinze reais. Daquelas que você vê na Loja Americana por cinquenta. Ao menos, foi o que o vendedor disse e, como me pareceu barato mesmo, comprei.

Fiquei encarando meu celular por mais alguns momentos, sem nenhum sinal de Drica, apenas uma mensagem de minha mãe, perguntando onde eu estava. Ri, respondendo que estava no trem, parado entre Méier e Engenho de Dentro por causa de um atraso no trem anterior. Não importava que eu tivesse vinte e três anos e tivesse passado os últimos anos morando sozinho em São Paulo. Pra a minha mãe, eu ainda era o mesmo moleque de sempre, perdido por aí.

Resolvi olhar o facebook e passei na página de Drica, notando que ela fizera algumas postagens durante o dia, e comentara em algumas de alguns amigos. E compartilhara um bando de coisinhas engraçadas e inúteis que me fizera rir durante a viagem. Mandei um "Oi :)" pelo chat, na esperança que ela me respondesse brevemente.

Visto que não aconteceu, e o que eu ponderei ser porque ela deveria estar trabalhando com a mãe já que havia me contado que tiraria folga no carnaval e precisava preparar tudo para não ficar muito pesado para ela, o que eu achei fofo.

Comecei a jogar um joguinho que nem me lembrava que tinha no meu celular, o que foi bem distrativo durante as seguintes paradas. Tanto que o companheiro ao meu lado começou a prestar atenção e me deu alguns palpites errados, mas tudo bem. Quando ele desceu em deodoro para pegar o trem do outro ramal, já que descobriu que estava no trem errado, me deixou o seu jornal. E isso me deu uma leitura informativa pelo resto da viagem.

Cerca de vinte minutos depois, consegui desembarcar aos pés da minha favela, quando meu telefone tocou.

"Onde você tá, mané?" Era meu irmão, sendo um otário.

Soltei uma risadinha debochada porque ele e minha mãe pareciam duas galinhas atrás do pintinho perdido, que era eu. Engoli a seco, percebendo que aquela preocupação toda se devia ao fato que eles me perderam por anos a fio e agora talvez tivessem medo de me perder outra vez.

- Acabei de descer do trem - respondi. - Que é que você quer?

Acenei para um amigo da minha mãe, que tinha uma barraquinha de frutas na saída da estação e continuei meu caminho.

"Quer vir aqui em casa jogar uns games? Cela comprou umas pizzas!" ele parecia animado e sua animação juvenil me fez sorrir.

Pensei que depois de andar por todo o centro da cidade, batendo de loja em loja para deixar o meu currículo e de uma viagem para lá de cansativa de quase duas horas, pizzas, cervas e games pareciam bastante agradáveis.

- Vai trabalhar não, mané? - perguntei. Porque se ele ia me fazer subir até o Alto para me abandonar com a namorada depois de uma hora, eu não ia. - Disse que tava enrolado e tô te vendo aí de vida mole...

Não que Cela não fosse uma ótima companhia. Ela era prestativa - me acompanhara duas vezes em minhas aventuras para arrumar o emprego - e divertida. Mas eu preferia descansar um pouco a ter que ficar pensando em tópicos de conversa para manter com a namorada do meu irmão.

"Nada" seu humor mudou. "Amanhã tem baile pré-carnaval. Tô com a noite livre porque vou ter que virar amanhã. Vou ter que ficar de olho na vadiagem toda" suspirou, não parecendo nem um pouco feliz com a perspectiva de trabalhar dobrado no dia seguinte.

Estalei o lábio com a notícia. O carnaval estava se aproximando e eu não conseguia negar que estava animado em estar de volta ao Rio para curtir a festividade. Conseguia me lembrar com clareza do quanto eu me divertira na adolescência e, agora, podendo ir mais longe e para onde eu quisesse, só podia concluir que seria ainda melhor.

Porém, ao ver o drama do meu irmão e saber que ele estaria enrolando no dia seguinte, quase lhe ofereci ajuda. Acabei desistindo porque recordei-me de minha promessa. Mas ainda poderia lhe oferecer uma noite agradável e divertida em minha companhia, como ele queria.

- Saquei. - Respondi. Já estava na metade do caminho de casa. - Beleza, então, mas vem aqui me pegar de moto que eu já andei feito um condenado hoje e não vou subir o morro até aí nem se tu me pagasse.

Pepê soltou uma gargalhada contente e combinou de me pegar na esquina de casa. E já estava lá quando eu o alcancei. Nos cumprimentamos com soquinhos nos ombros e eu montei na moto atrás dele, sendo guiado pela favela até o alto do Alto, onde, à distância, identifiquei duas figuras formosas em frente ao seu portão.

Uma era Cela, loira e alta, parecendo rir despreocupada, que acenou animada ao ver que nos aproximávamos. A outra, morena e com cachos bem delineados, se encolheu ao me ver e pareceu completamente surpresa e fora de lugar. Essa era Drica.

O celular, em suas mãos, me dizia que ela havia visto minhas mensagens, sem nem se dar o trabalho de responder. Pepê e eu descemos da moto e ele passou pelas duas, cumprimentando e arrastando a máquina para dentro, enquanto eu me prostrava como um mané, sem saber exatamente como agir naquela situação.

- Boa noite, Cela - cumprimentei-a. Embora o Sol estivesse à pino, já estávamos chegando às seis horas. Cela me respondeu animada, ao que eu me virei para Drica. - Boa noite, Dri.

- Boa noite - respondeu-me, com a vozinha baixa, acuada demais por ter sido pega desprevenida com a minha presença.

Soube, então, que ela o plano de Pepê desde o inicio.

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