Não é tão "conto de fadas". A vida permite sonhos, não imaginação fértil de crianças. Sonhos são feitos para serem seguidos, imaginação é feita para dar inspiração. E há quem diga que as piores brigas vêm daqueles casais que não tem nada a ver um com o outro. E aqui diz que nada é impossível. Simplesmente acontece.

Quando criança, Mariesaly costumava ser meiga, sincera, tímida e quieta. Quando falava em sala de aula, os coleguinhas caçoavam e quando se calava, a mesma coisa. Saly foi se fechando e, uma vez que foi crescendo, foi aprendendo a se blindar, inclusive seu coração, de pessoas ruins. 

Não tinha com quem conversar e pedir conselhos em casa, seus pais viviam distantes, seus avós foram envelhecendo e assim foi ficando gasto o coração de Saly.

Viver nunca foi tão difícil, mas sempre fora necessário. Ela nunca respondeu as perguntas, duvidas ou brincadeiras. Deixou de prestar atenção no mundo ao seu redor faz tempo.

Era uma grande amargura e Mariesaly não poderia deixar que fantasias e sonhos de criança acabassem de desmoronar sua vida já  ameaçada pelo vendaval dos problemas de adulta.

E a faculdade lhe trouxe mais tranquilidade e mais foco na vida. Por um lado precisava de forças  e compreensão para entender os problemas, por outro, precisava se dedicar ao máximo e ser uma ótima profissional para melhorar a qualidade de vida da família.

Psicologia era seu sonho, afinal, precisava sonhar com alguma coisa útil, sua imaginação não poderia agir de acordo com a realidade, caso contrário ela geraria expectativas, isso geraria uma decepção que geraria dor, que geraria um belo tapa na cara. 

Saly queria distância de ilusões, expectativas, imaginações, tudo o que poderia a machucar e fazê-la desistir de uma coisa que sempre sonhou: um amor para a vida toda.

Diziam para ela que o "para sempre" não existia. Saly não acreditava nisso, mas a medida em que foi crescendo, se decepcionando, se desiludindo, a crença no "para sempre" foi se desgastando, já que presenciou em sua vida tanto desamor, tanta gente não dando importância aos outros, tanta gente se iludindo e se machucando, que Saly simplesmente parou de acreditar ou ao menos queria parar de acreditar, mas seu coração implorava para que ela continuasse a acreditar, por que as coisas só se tornam possíveis quando acreditamos nelas.

Talvez Mariesaly estivesse equivocada em não acreditar mais no amor recíproco ou no "para sempre". Talvez a vida estivesse testando sua força, sua vontade, provavelmente a vida estaria testando-a até naquele instante em que está parada em frente à faculdade, tentando respirar normalmente e não pensar que colegas novos sempre faziam besteiras novas.

Mas o que aconteceria se Saly passasse a tentar mais e desacreditar menos?

Só mais uma vez, Saly engoliu em seco, sentindo o vento fresco de uma manhã diferente e brilhante. Seus olhos verdes eram misturados ao azul e ao castanho claro e arderam quando o vento lhe atingiu, fazendo seus cabelos se desalinharem e sua pele se arrepiar. O novo ainda a assustava tanto que mal podia conter a ansiedade.

Enfim, ela se recompõe, suspirou, trocou a mochila de ombro, deu um sorriso para si mesma, mesmo que seu coração estivesse a mil por hora. Quando deu os primeiros passos, não percebe um  grupo de garotas se aproximando e acaba se esbarrando em uma delas. Envergonhada, Saly diz:

– Perdão!

– Olha por onde anda! - A moça responde com rispidez.

Saly franziu a testa e, não tão mais envergonhada assim, responde:

– Foi um acidente, moça.

– Não seria se você não se enfiasse no meu caminho, querida.

Saly sentiu suas veias se agitarem, engoliu em seco, respirou fundo e se esqueceu que tinha educação de berço:

Des(amar) - Em Revisão Leia esta história GRATUITAMENTE!