Tudo o que vai...

62 3 0

- Estou pronto! - as palavras mal saíram de sua boca e já continham um tom de arrependimento. O homem à sua frente choramingava, hesitava com a arma tremendo em mãos. Poucos milésimos de medo tomaram conta de seu corpo e congelaram seu peito.

Poucos milésimos.

A explosão veio com o puxão do gatilho, liberando o projétil que o jogaria em direção aos braços da morte. A bala perfurou seu peito no lugar onde deveria; sentiu a pele e os músculos se abrindo, cedendo passagem para que o projétil alcançasse seu destino. Chegou num instante. O coração parou. Seu corpo caiu, com a mesma expressão de medo.

Uma eternidade se passou.

Grunhido. A mesma sala ainda estava lá. Um teto e uma lâmpada fluorescente que oscilava estavam ao alcance de seus olhos. Apoiou-se num braço e tentou se levantar, mas quase escorregou numa poça de sangue. As cores haviam sumido de sua visão; tudo estava preto e branco. Cambaleou até a porta, esbarrando em cadeiras e mesas viradas, e finalmente a empurrou.

A cabeça do homem latejava de tal forma que ele só conseguia gemer e grunhir de dor. Apoiou o cotovelo na parede e ficou lá, esperando a dor passar, o que se mostrou inútil. Alguns vestígios de sua antiga consciência indicavam que ele estava num hospital abandonado. Voltou a caminhar pelo corredor escuro apoiando-se na parede.

Ouviu um som. Vozes. Em seguida, cheiros, que o deixaram satisfeito. Havia vida naquele lugar, e aquilo lhe deu ânimo. Descobriu que estava faminto. Cambaleou mais rápido até a origem dessas manifestações, enquanto luzes tremeluziam acima dele ao atravessar o corredor.

Havia corpos estirados no chão em diversas posições e tamanhos, mas com o mesmo cheiro de morte. Uns estavam sem as cabeças, outros sem os braços ou uma das pernas. Um deles estava com um cutelo fincado no meio do crânio. Havia também revólveres, facas e espingardas jogadas por ali.

Todos dividiam a mesma banheira de sangue, que se estendia também pelas paredes.

Mas o homem passou vagarosamente por eles sem se importar.

Cambaleou até uma porta entreaberta, de onde saíam vozes que o homem não compreendia. O forte cheiro o atraiu, fazendo-o empurrar a porta.

Lá dentro, dois homens e uma mulher gritaram.

☩☩☩

DespertadosLeia esta história GRATUITAMENTE!