Capítulo 5

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-- Pai, tem certeza que é ela? -- uma voz masculina perguntou. Escute bem, a vozes ecoaram.

-- Acho que sim… Elise não me previniu de nada. -- outra voz respondeu. Continuei de olhos fechados tentando escutá-los melhor.

-- Mas ela não parece tão… especial assim. -- o outra comentou, desconfiado. Como ousa, pensei irritada. 

-- Você não disse que ela viu suas memórias? -- a outra voz perguntou. -- Isso já é prova suficiente.

-- Hm… certo. -- ele concordou. Minutos depois senti uma coisa quente na minha testa e surpresa, me levantei sem nem pensar duas vezes.

  Um homem de meia-idade me fitava com espanto, enquanto mantia estendido o pano com água morna. O outra homem que tinha me sequestrado me olhava com uma sobrancelha erguida, encostado relaxadamente na parede de braços cruzados.

-- Quem são vocês? -- perguntei um pouco irritada por minha voz ter saído trêmula. O sequestrador bufou e o homem de meia-idade pigarreou colocando o pano em um balde com água.

-- Não… falaram sobre mim? -- ele perguntou apontando para a própria cabeça. Mestre! Mestre!

-- Mestre…? -- perguntei hesitante e ele gargalhou. O sequestrador bufou novamente e saiu para outro cômodo.

-- Talvez me chamem assim, mas você pode me chamar de Hifton, ou simplesmente Hif. -- ele respondeu e eu assenti um pouco envergonhada.

-- E... e o que eu estou fazendo aqui? -- guaguejei quase caindo da cama onde eu estava.

-- Elise não te falou nada? -- ele perguntou e eu franzi a testa tentando me lembrar de quem seria Elise. -- Ah, entendi! O selo ainda não está completamente liberto.

-- Elise? Selo? Do que você está falando, senhor... Hifton? -- perguntei confusa. Ele suspirou e se sentou na cama de um jeito que ficasse confortável.

-- Vou tentar explicar do melhor jeito que eu conseguir. Quando eu terminar, você poderá me perguntar o que quiser. -- ele anunciou. -- Há muito, muito tempo atrás... ainda nos primórdios da humanidade, alguns humanos descobriram que não eram comuns, não era tão parecidos com os outros. Que não eram humanos.

  Me sentei melhor e prestei atenção a cada uma das suas expressões, querendo saber se ele estava ou não inventando aquilo tudo. Tentei olhar nos seus olhos, mas toda vez que eu tentava, alguma coisa me impedia e eu esquecia o que eu queria fazer. Por fim, desisti e comecei a prestar atenção a história e as reações dele.

-- Alguns tinham habilidades muito distintas e poderosas e se sentiram ameaçados pelos humanos, sendo assim, eles começaram diversas guerras. -- ele indagou parecendo estar totalmente fora do mundo real. -- Os humanos pensaram que eles eram normais como eles e deduziram que fossem inimigos querendo riquezas, terras e mulheres que lhes pertenciam. Foi assim que os nossos antepassados descobriram que os humanos nunca iam descobrir sobre suas habilidades, a menos que algum deles os traíssem. Infelizmente, um dos nossos nos traiu e contou tudo para uma humana pela qual era perdidamente apaixonado. A humana, sem perder tempo, contou a sua mãe, que contou ao pai e esse, contou aos outros. E foi aí que vários antepassados nossos foram queimados nas fogueiras.

-- Eles achavam que eles eram bruxos? -- perguntei incapaz de conter a curiosidade. Ele assentiu antes de prosseguir.

-- Sim, de fato achavam. Aos poucos, eles viram que os humanos não iam entender e decidiram se esconder e viver pelas sombras. O problema foi que muitos começaram a se apaixonar por criaturas da floresta. Ninfas, Trolls, duendes, etc. Sendo assim, surgiram os "monstros" de quem as crianças tem medo. Uma das raças mais conhecidas são os "Bichos Papões". -- ele falou e fez uma pequena pausa dramática, como que se não recordesse mais da história.

-- Então, muitos deles viviam em lugares escuros, nas florestas ou em lugares inabitados por humanos. Os que se pareciam mais como "humanos", viviam no mundo normal. Casavam com humanos, tinham filhos e morriam. Quase toda a história foi esquecida devido a isso, mas os que viviam na escuridão das florestas, vinham de tempos em tempos relembrar as novas gerações. Assim como eu estou fazendo com você. -- ele disse e sorriu. -- Tem várias classes que predominam nossas diversas espécies.

-- E a que classe eu pertenço? E que espécie eu sou? -- perguntei rapidamente. Ele sorriu e sussurrou um "Calma", antes de recuperar o fôlego.

-- Eu ainda não sei. Você é diferente dos outros. Você consegue ver os pensamentos e as memórias dos outros, não é? -- perguntou e eu acenei, hesitante. -- Isso significa que você é muito poderosa. Existem muitas lendas e mitos que foram perdidos com o tempo e relatos antigos sobre a sua espécie. Elise me pediu para pesquisar, mas eu só consegui encontrar alguma coisa sobre você ser de uma linhagem antiga. Uma descendente dos primeiros.

-- Quem é Elise? -- perguntei e ele suspirou.

-- Sua mãe. -- ele indagou. Sorri e balancei a cabeça negativamente.

-- Não, não. Minha mãe se chama Gleyne. -- eu falei divertida como se ele tivesse feito algum tipo de piada, mas ele continuava sério. Parei de sorrir.

-- Olha, Zara... É bem complicado. -- ele comentou coçando os cabelos grisalhos como se estivesse incomodado. -- Vou ser direto, mesmo que isso seja um pouco insensível demais. Você quer saber por que a sua "mãe" pulou daquele prédio?

  Quando ele citou a parte do suicídio dela, eu quase perdi o ar. Como ele sabia sobre isso?

-- Eu... eu não entendo. -- eu disse.

-- Você nunca se perguntou por que é tão diferente da sua mãe e do seu pai? -- ele perguntou novamente. Virei o meu rosto como se tivesse levado un tapa.

-- Não sou tão diferente. Minha mãe tem olhos castanhos... -- murmurei defensivamente.

-- Sim, e o que mais? -- ele perguntou e eu comprimi os meus lábios em uma linha fina e firme.

-- Eu posso ter puxado a algum parente distante. -- eu insisti. Para falar a verdade, nem eu acreditava mais naquilo.

-- Você sabe que não, Zara. Não tente negar. -- ele suspirou. Me levantei me sentindo ofendida.

-- Não tente negar? Negar? O que voce quer dizer com isso?! -- gritei segurando as lágrimas. -- Se o que você está insinuando for verdade mesmo, então onde está essa Elise?!

-- Estou aqui, Zara. -- uma voz feminina falou.

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