Durante o café

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Quando entregou o café, Léo desejou ter escolhido uma xícara que não estivesse com a borda lascada. Voltava aos treze anos quando o pai estava por perto, especialmente se ele trazia sua longa carreira e a colocava ao lado da vidinha de Léo, que era só uma casinha em cima de um morrinho. Filho caçula, não conseguia se livrar do diminutivo.

— Você me lembra a sua mãe — disse o pai, e bebeu um gole do café. — Descansando no interior.

Léo queria ter guardado a pilha de contas acumuladas, uma incontestável prova de que ele não fazia nada além de assistir da janela as tardes se repetirem, quando a vizinha praticava yoga no quintal depois de passear com o cachorro pela quarta das seis vezes que o faria até o fim do dia.

— Imagino que tenha seu charme — o pai olhava as paredes, que, pelo que Léo se lembrava, não tinham aquelas manchas alaranjadas, e depois o sofá, que parecia ter criado rasgos de um dia para outro. Devia ter dado uma boa olhada na casa no dia anterior, limpado tudo e, quem sabe, criado coragem para ligar e dizer para o pai que ele não deveria vir. Como ia saber que o pai aceitaria o convite feito só por educação? Se soubesse, não teria dito nada.

— V-Você… — a cabeça de Léo transformava tudo o que ele tinha a intenção de dizer no que gostaria de perguntar. Você veio até aqui por obrigação? Você quer fazer um favor para nós dois e ir embora como se nada tivesse acontecido? Você se arrepende? Nenhuma das anteriores: — Você quer mais café?

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