8.1 PERDEDOR

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CAPÍTULO OITO - E QUANDO TUDO PARECE FORA DO LUGAR?

Eu me dei um prazo. Ao menos duas semanas para conseguir uma ligação. Só uma ligação me chamando para uma entrevista seria o suficiente para não me enfiar no tráfico.

Se isso não acontecesse, eu iria aceitar a proposta de Pepê. Tentaria me manter o mais longe possível das armas e confusões e o ajudaria com as drogas, até conseguir algo melhor.

Parecia razoável.

Para evitar a segunda opção, porém, eu tinha que me manter em movimento, tinha que permanecer firme em minha convicção de que conseguiria um emprego honesto. E mesmo que eu estivesse sonhando com meu encontro com Drica e mesmo que o carnaval fosse começar naquela semana e ninguém estava levando nada a sério, eu fui ao centro da cidade com mais uma leva de currículos.

Alguém, em algum lugar, podia estar precisando de qualquer coisa que eu pudesse fazer. Por Deus, não era possível que não.

Eu já estava parado há quase seis meses desde então. Entre deixar o estágio e procurar qualquer outro trabalho, eu tinha levado cinco meses antes de desistir. E aí voltei para o Rio, na intenção de conseguir alguma coisa por aqui, não sem antes deixar muitos currículos pela internet.

Nada estava dando certo e eu já estava achando que estava amaldiçoado.

Ao invés de ir para casa, quando cansei de perambular pelas ruas e ruelas do Saara, peguei o metrô para o lado inverso e desci em Copacabana, me arrastando pelo curto caminho até a praia. Atravessei as vias e a ciclovia, vendo aquela gente rica que não trabalhava caminhando por ali, envoltos de turistas que se divertiam em sua viagem à uma das cidades mais lindas do mundo.

As vezes, eu não me dava conta. Acho que durante a maior parte do tempo em que eu estive em São Paulo, eu não conseguia me sentir em casa e eu não conseguia evitar me sentir apático, mas era bastante óbvio agora.

Eu sentia falta de casa.

Apesar dos pesares, do abandono em que a área onde eu morava estava, e todos os outros problemas, até mesmo nossa falta de opções de estradas, eu amava aquele lugar.

E atravessando um dos nossos mais icônicos símbolos, o calçadão de ondas pretas e brancas que demarcava toda a orla de Copacabana, eu chorei.

Sentei-me na areia fofa da praia, encarando as almas que ali tomavam Sol, e chorei. Chorei porque eu estava de volta em casa. Chorei porque eu estava em um beco sem saída, quase entrando para o tráfico. Chorei porque eu era um zé ninguém que nunca conseguia nada da vida, e nunca conseguiria. Eu nunca seria uma daquelas pessoas, passeando despreocupadas porque estavam com a vida ganha.

Chorei porque não importava o quanto eu me esforçasse, nada parecia dar certo.

Exceto Drica.

Drica estava sendo uma brisa fresca naquela confusão infernal em que a minha vida se encontrava. Sequei minhas lágrimas com raiva por ter me deixado levar pelos meus medos e tirei meu celular do bolso para ver se conseguia encontrar alguma palavra sua que me acalmasse naquele furacão.

Nada.

Estranho. Drica era sempre ágil para responder minhas mensagens, mas ela não respondera nada durante o dia. Trocamos algumas mensagens depois do encontro, antes de dormir, mas nada mais.

Talvez estivesse ocupada.

Não me importando com o seu silêncio, tirei uma foto do mar e lhe mandei anexada à mensagem "Olhando o mar e pensando em vc xx".

Fiquei mais um pouco encarando o mar antes de me levantar para ir embora, mais por causa do calor do que por qualquer outra coisa.

Atravessando o calçadão, distraído, lendo uma mensagem de minha mãe no celular, perguntando onde eu estava, esbarrei com uma garota.

- Opa, desculpa aí - eu disse.

A bolsa dela caiu no chão, tal como o meu celular, e as coisas se espalharam. Abaixamos ambos para arrumar. Acabou que eu peguei seu celular e ela o meu e rimos, ao destrocar. Pensei que ela gringa porque ela não disse uma palavra sequer, mas reparei que tinha seus trejeitos de brasileira, com a cor da pele clara, mas bronzeada, além de não estar vestindo nada verde ou amarelo ou com qualquer estampa de atração turística carioca.

Conclui, então, que era brasileira, apenas momentos antes de ouvir suas palavras em um sotaque paulista, um pouco misturado com o chiado carioca.

- Obrigada pela ajuda - disse, com um sorriso.

Um brutamontes todo vestido de preto se aproximou correndo e me afastou dela com um empurrão, provocando-lhe um grito indignado.

- Tá tudo bem, dona Manuela? - questionou, ansioso. Percebi que era um segurança, o que me fez forçar minha memória para tentar me lembrar dela.

Manuela o empurrou, embora isso tivesse pouco efeito e soltou um palavrão para ele, batendo seus pés em direção à praia. A mim, ficou óbvio que ela estivera tentando fugir dele, mas não conseguiu.

- O individuo não era ameaça. Repito. Não é ameaça. A senhorita Montes está na praia.

Ele deixou ela tomar uma distância razoável e começou a segui-la, enquanto minha mente girou e eu procurei com afinco porque o nome Manuela Montes me era familiar.

Com um rangir de dentes, a resposta veio. Ela era a filha do maior magnata das mídias do Brasil, um pouco espevitada e sempre à beira das confusões. Se eu conseguisse colocar um currículo em suas mãos...

Caminhei de volta à praia e tentei me aproximar, mas o brutamontes me mandou voltar, sem nem ouvir o que eu poderia ter para dizer.

- Manuela! - chamei, tentando chamar sua atenção, mas pelos fios que eu via ao lado de sua cadeira de praia, ela parecia estar ouvindo música e não iria me escutar.

Decepcionado por ter perdido aquela oportunidade única e antes que o segurança resolvesse me arrastar para a delegacia mais próxima, eu me afastei em direção ao metrô e à viagem que eu teria que fazer até em casa, encarando a minha má sorte e desejando morrer por não ter conseguido.

Por três segundos, eu tive a atenção da filha do cara que me conseguiria o emprego dos meus sonhos e eu desperdicei pensando no quão bonita ela era.

Eu merecia, mesmo, estar naquela situação infernal. Eu era um idiota completo.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!