7.1 ARRUMAÇÃO

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CAPÍTULO SETE - EU ACHO QUE VOU ENTRAR EM PÂNICO EM 3...2...

- Cadê sua mãe? - Cela perguntou, assim que nós chegamos na cozinha de casa.

Estava tudo meio bagunçado, visto que eu tivera que trabalhar a manhã inteira pelo dobro para poder compensar a tarde e a noite livre - embora fosse minha folga. E levando em consideração que eu só trabalharia no dia seguinte - e na quarta, durante o dia, até minhas substitutas começarem, à noite, - aquilo estava acumulado. Por sorte ou por competência, alcançamos um número considerável de salgados congelados, batatas pré-prontas e minha mãe tinha saído para comprar o que quer que ela achasse que ia precisar para o carnaval.

- Foi ao CEASA - respondi. - Acabaram algumas coisas e ela quer estocar, caso precise...

Cela estalou os lábios em concordância e eu comecei a subir as escadas em espiral, com ela em meu encalço, o barulho metálico ecoando na nossa casa vazia.

Era pequena, a minha casa, mas minha mãe tinha feito com que meu quarto fosse quase um santuário, mesmo que o dela fosse pequeninho por conta disso. Eu tinha espaço para tudo, para reunir as amigas, para dançar, para fazer yoga, se eu quisesse...

Com um pouco de esforço e trabalho duro, minha mãe tentava me dar tudo o que eu sonhava.

Ah, é claro, exceto uma vida longe dali e estudar numa faculdade!

- Então, por que você não me conta como foi ontem, com o Pepê? - Cela estava sorrindo, entrando no meu quarto, enquanto eu já me jogava na cama.

Entortei a cara para ela, lhe fazendo uma careta. Tinha contato o suficiente para ela e Mila, entre mensagens durante a madrugada, mas é claro que Cela queria mais.

- Por que você não me conta o que Pepê disse pro JP que fez ele me procurar, ein? - eu inquiri, já que ela fugira do assunto quando eu lhe perguntara. Todas as três vezes.

Cela sentou-se na cadeira da minha escrivaninha e virou em minha direção, sua expressão demonstrando que ela não estava muito contente com a insistência na pergunta.

- Ah, você sabe - murmurou. - Pepê e a sua mania de ser o cavalheiro dourado de todas as donzelas indefesas do universo.

- O que significa nós duas - eu ri.

- Basicamente - ela concordou. - Mas, as vezes, ele anda por aí, achando que consegue convencer as mães a não venderem as garotinhas, você sabe. Pr'aqueles velhos tarados pedófilos.

Estremeci. Tive uma colega, no fundamental, que a mãe a instruíra a procurar um desses caras, para arrumar dinheiro, presentes e tudo mais, já que ela não tinha como dar. No caso dessa colega, eu tinha quase certeza que a mãe lhe dissera no meio de uma briga e que ela não estava falando sério, que havia sido só mágoa por Larissa estar lhe pedindo coisas que ela não poderia dar.

Mas ela foi assim mesmo.

Ela tinha doze e o cara passava dos cinquenta. Ele foi um bruto com ela, em sua primeira vez, e ela ganhou um celular caro por causa disso. Eles continuaram se encontrando e ela foi ganhando presentes e dinheiros. Parecia não se importar, contanto que ele lhe presenteasse.

Eu não tinha nada contra mulheres que se prostituíam porque eu sabia que a fome e o desespero pode levar a necessidade - e, ok, podem ter algumas que não precisam, mas fazem porque gostam, realmente não me incomoda nada disso. Mas Larissa tinha doze anos. Ela não sabia o que estava fazendo e a família dela não se deu conta durante algum tempo.

Quando souberam, o cara morreu. Provavelmente, alguém relatou aos chefes do tráfico e eles não gostavam nem um pouco dessas coisas, se podiam evitar.

Mas ela conseguiu outro. E eu sabia que ela não era a única. E pior que isso, eu sabia que algumas mães vendiam as filhas até contra suas vontades.

Tudo por um prato de comida, certo?

- Bom - murmurei. Ao contrário de Cela, que parecia incomodada, ficava satisfeita que Pepê fizesse qualquer coisa ao seu alcance para impedir aquilo. - Mas JP só é uns seis anos mais velho que eu, então não nos enquadramos, certo? - ri.

Cela riu também e concordou com a cabeça.

- Ele acha que você está apaixonadinha por ele e disse ao JP que se ele te magoar, vai quebrar a cara dele - ela mordeu o lábio, enquanto eu segurava a respiração.

Ele disse o quê? Berrei, mentalmente.

- Eu vou matar o Pepê! - gritei.

- Nada de matar meu marido! - Cela berrou de volta.

Nos encaramos por alguns segundos e depois explodimos em gargalhadas. Que droga. Eu não conseguia nem ficar zangada por muito tempo.

- Mas, então, o que ele disse sobre isso? - Cela perguntou.

- Ah, ele disse que não quer nada sério porque eu vou embora assim que passar no vestibular e que ele também não quer ficar muito tempo por aqui. - Dei de ombros. - Achei legal.

Cela cerrou os olhos em minha direção, como se estivesse tentando decifrar alguma coisa que minhas palavras não fossem dizer.

- Mesmo, Adriana? - perguntou.

Congelei, um pouco assuatada, porque toda vez que meus amigos usavam meu nome, era sinônimo de problema. Porém, ali, ela só não estava acreditando em minhas palavras.

- Mesmo. Ele disse que não quer me prender, que quando eu tiver que ir, eu vou. Mesma coisa pra ele - sorri, bastante contente com aquele acordo. - Você sabe, eu não gosto de ficar com ninguém por muito tempo por medo de me prender mesmo, então... Parece perfeito - repeti as palavras que havia dito para JP porque eu acreditava piamente nelas.

Cela continava cerrando os olhos em minha direção, como se não acreditasse, mas eu estava falando a verdade, sinceramente. Que saco, esses meus amigos achando que eu estou me metendo numa furada quando eu, no fundo, acho que estou me colocando na melhor coisa que aconteceu nos últimos anos.

- E ele me beijou, sabe? - murmurei.

Isso a distraiu o suficiente do assunto anterior. Ela berrou um "O quê?" e deu um pulo, vindo se sentar ao meu lado da cama.

- Me conta tudo! - exclamou, animada.

- Foi um beijinho de nada... - Sussurrei, mas contei-lhe os detalhes, mesmo assim.

A história foi bem detalhada e acho que até exagerei em algumas partes, mas Cela era uma boa ouvinte e soltava as exclamações perfeitas nos momentos exatos.

Quando terminei, ela se pôs de pé, prática.

- Vá tomar um banho. Nós vamos deixar você perfeita para essa noite! - e em passos largos, caminhou até o meu armário. - E, então, o que vamos vestir?

Mas não parecia estar mais falando comigo. Rindo, levantei-me e arrastei-me até o chuveiro, antes que ela mesma me levasse. Provavelmente, pelos cabelos.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!