6.3 IMPLICÂNCIA

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Pepê me olhou com cara de poucos amigos, mas não se recusou a me dar carona. Era apenas a continuação da sua ameaça fazendo efeito e se eu queria que ele parasse de me acusar daquela maneira, eu teria que mostrar serviço. Isso é, teria que deixar claro que Drica ficaria bem comigo.

O detalhe pequeno era: se Drica estivesse esperando mais do que eu estava esperando daquela situação, eu não sabia o que fazer. Mas pretendia tirar a limpo antes que fosse tarde demais. Uma decepção agora iria doer menos do que uma em um mês.

Pepê estacionou na frente dA Caverna e eu desci rapidamente, apenas para notar que o bar estava cheio e que eu dificilmente teria Drica por alguns momentos.

- Olha lá, ein? - Pepê me alertou.

Fiz cara feia para ele porque já estava de saco cheio. Ele era meu irmão, não da garota, devia estar me apoiando e não me enchendo o saco com o que eu ia ou não fazer com ela.

E eu já havia dito: Não queria magoá-la.

Drica estava no balcão de bebidas, como de costume, olhando para baixo e eu sabia que estava mexendo desesperadamente no celular. Arrisquei um sorriso, sabendo que ela tinha alguma espécie de compulsão com o aparelho e não o largava quase em momento nenhum, como se qualquer segundo fosse significar que ela perderia uma informação totalmente importante.

Não percebeu quando eu entrei no bar e me aproximei. Apenas notou quando eu bati com uma moeda na parte de vidro do balcão, fazendo um barulho agudo que a assustou e fez levantar a cabeça, quase perdida, sem saber o que estava acontecendo.

Abriu um sorriso rápido e aberto assim que bateu o olhar sobre mim e eu correspondi automaticamente, sem me conter.

Apesar de estarmos nos falando por mensagem todos os dias, eu não a via desde o meu convite para o encontro. Estava sempre ocupada e atolada de trabalho e eu não queria atrapalhá-la. Também não queria que, visto o seu costume de não ficar com ninguém mais de duas vezes, ela enjoasse de mim antes que eu pudesse me dar a chance de encantá-la.

Porém, lá estava eu, tentando consertar uma ideia que meu irmão achava que eu havia passado para ela e que deveria estar preocupado sobre.

- Você tem alguns minutos? - perguntei.

Seu sorriso se desmanchou e ela apertou os lábios juntos, como se com medo do que eu pudesse dizer para ela nesses momentos que eu estava pedindo.

- Vou ver - sussurrou.

Ela correu a porta da cozinha e eu ouvi seus sussurros incompreendíveis para a mãe. Tia Marta se esticou lá dentro, olhando para mim, e então sorriu, voltando-se para Drica e concordando com a cabeça. Ela apontou para algum canto na parede e Drica entrou na cozinha por um minuto, voltando de lá com chaves na mão e deixando a porta aberta a pedido da mãe.

- Vem - chamou-me.

Ela me levou para os fundos do bar e abriu uma porta, que nos levou para uma sala, quase metade do tamanho que o bar era, cheia de bebidas estocadas, além de algumas coisas de comida que pareciam ser mexidas com frequência.

Eu entrei, olhando tudo ao redor, e Drica fechou a porta atrás de si, dando um giro na chave e eu sabia exatamente o que ela estava esperando que acontecesse.

- Alguns minutos, você disse? - perguntou-me, parando à minha frente, se perguntando porque eu não havia feito nada.

- Queria conversar um pouco - murmurei.

Porém, a proximidade e o fato de que estávamos sozinhos e com segurança de permanecermos assim não pôde impedir meu braço de rodear sua cintura e puxá-la mais para perto. Ela veio sem nenhuma resistência e senti seus braços se passando por cima do seu ombro, assim como sua cabeça se encostando em meu peito.

Seus lábios pareceram discretos, mas senti-os na base do meu pescoço, quase que sem querer. Soltei um suspiro e me controlei, sabendo que nada de bom sairia se fôssemos para aquele caminho agora.

- Conversar? - perguntou, a voz baixinha.

Ela soltou uma risadinha e eu acabei acompanhando-a, sem motivo aparente. Deixei meus lábios escorregarem até sua orelha.

- Pepê está preocupado com você - murmurei. - Ele acha que eu estou brincando com você de alguma forma. Me assustou.

Não era o que ela estava esperando, era claro. Apesar de manter seus braços ao redor dos meus ombros, afastou o rosto do meu peito e colocou seus olhos grandes e amendoados em mim.

- E você está? - perguntou.

- Não, Dri - respondi. - Mas eu queria deixar as coisas claras contigo antes que alguém se magoe e meu irmão me dê um tiro no pé por qualquer coisa - ela riu, apesar do teor pesado da conversa. Talvez não achasse que ele fosse atirar no meu pé, mas eu sabia que ele era capaz. - Gosto de você. Te acho linda.

Ela desviou o olhar do meu, parecendo envergonhada, olhando para nossos pés. Esticou-se, ficando um pouco mais alta e encolheu-se outra vez.

- Eu também gosto de você e te acho lindo - sussurrou de volta.

Eu queria muito beijá-la bem naquele momento, mas não podia. Se eu a beijasse, estaríamos na mesma situação de antes e eu provavelmente estaria a iludi-la, motivo pelo qual eu me dirigira ali para tentar tirar a limpo.

- Mas eu não estou planejando nada sério, Drica. - Murmurei. Senti seu olhar um pouco decepcionado e ofendido e continuei - você está querendo ir embora em alguns meses e eu não vou prendê-la aqui. Eu também não pretendo ficar aqui por muito tempo e eu não quero me sentir preso. Mas enquanto estivermos por aqui…

Ela entendeu o que eu disse da melhor forma possível. Vi sua carranca assustada se transformar em um sorriso de lado e concordou com a cabeça assim que eu terminei, satisfeita com a proposta que eu lhe estava oferecendo.

- Isso é perfeito - disse, por fim. - Obrigada.

E com panos limpos e não conseguindo evitar, deixei meus lábios encostarem nos dela de uma forma casta e doce. Senti sua surpresa ao me afastar rápido demais.

- Então… Amanhã às seis está bom pra você? Perguntei.

Ela concordou com a cabeça e sorriu contida, antes de aprisionar seu lábio inferior entre seus dentes de uma maneira que fez minha virilha fisgar de vontade de pegá-la de jeito ali, naquele hora.

Porém, o momento se passou com rapidez assim que ela virou a chave na porta, destrancando-nos, e marchou de volta para o bar. Sorriu em minha direção e eu acompanhei-a.

Enquantotrancava o depósito noamente, abraei-a por trás e lhe dei um beijo no topo da cabeça.

- Bom trabalho - sussurrei, sentindo seu corpo se moldar em meu abraço desajeitado - até amanhã.

Ela sussurrou um umprimento baixo que me fez sorrir. Sem dizer mais nada, tomei meu caminho para fora do bar e até em casa.

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