6.2 AMEAÇA

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- Não vai falar não, mané? - Pepê continuava a implicar enquanto eu ria.

Revirei os olhos com um sorriso besta no rosto e esfreguei meu último aimpim no restante amarelo da manteiga derretida enquanto suspirava.

- Nós temos conversado - eu disse, apenas.

Ele bufou e me deu um soco na barriga, forte demais para ser apenas de brincadeira e me lançou um olhar zangado.

- Deixa de ser uma bicha e conta esse negócio direito - reclamou. - Drica conta tudo pra Cela e eu sei mais que isso por ela, então desembucha.

Caí na gargalhada. Bando de fofoqueiros.

- Nós vamos sair amanhã - não contive o sorriso bobo em meu rosto. - Acho que vamos ao cinema. Não tenho certeza.

Ele estalou os lábios, razoavelmente satisfeito com a informação. Descansou o prato no lugar vazio do sofá e se virou para mim, parecendo sério e destoando totalmente do que estava passando na TV: vídeocassetadas.

- Tu é meu irmão, mas se tu magoar a Drica... - resmungou. - Não sei que porra tu tá fazendo com ela que ela não tá dando bola pra nenhum maluco, mas se tu magoar ela quando essa merda acabar, eu acabo com a sua raça. Tô falando sério.

Ele não precisava ter dito que estava falando sério porque sua expressão me dizia tudo. Engoli a seco e respirei fundo.

- Não pretendo magoar ela não - sussurrei.

- Se tu quer ficar com ela, beleza - ele fez um ok com a mão e continuou me encarando com aquela expressão que, a mim, parecia beirar à loucura. Pepê havia envelhecido e amadurecido uns bons anos com o envolvimento com o tráfico e isso era facilmente visível em seu comportamento. Eu me preocupava, agora, com a sua sanidade. Quando você vive com loucos e drogados, acaba se perdendo. - Não é muito diferente do que eu já vi acontecer com muitos aqui. Mas a Drica tem essa coisa de sair daqui e se você estiver iludindo ela com essa merda de ser viajado pra foder com ela e depois dar no pé, eu vou no inferno atrás de você e quebro a tua dentição toda, tá ligado?

Limpei a garganta e me senti um pouco encurralado. O que ele queria que eu fizesse? Fodesse com ela e depois casasse? Babaca.

- Já disse que não quero magoar a menina. Sacou? - resmunguei, irritado.

- Beleza então, seu merda - disse. - Se é assim, leva ela pra ver aqueles filmes de mulherzinha. Ela gosta.

Revirei os olhos e encarei a TV, enquanto nossa mãe descia as escadas, de banho tomado. Pepê pediu a benção e ela lhe deu, com um beijo estalado na bochecha.

Nossa mãe estava tão orgulhosa do sucesso dele no tráfico quanto do meu diploma. Para ela, não parecia ter diferença entre estudar quatro porras de anos ou vender drogas. Era o máximo.

- Tem que trabalhar não, filho? - perguntou a ele, enquanto recolhia nossos pratos para levar à cozinha, provavelmente já para começar a fazer o almoço do dia seguinte.

Pepê levou as duas mãos à cabeça e se recostou no sofá como se estivesse em uma praia e alguém estivesse abanando-o. Apesar de suas ameaças, eu não pude deixar de acompanhar minha mãe em sua risada histérica pelo comportamento displicente do caçula.

- João me mandou uma mensagem dizendo que tinha aimpim - ele deu de ombros, como se isso explicasse tudo. E explicava.

Fazia tempos que eu não comia aimpins naquela situação específica. Antes de sair de casa e antes da morte do meu pai, era uma tradição. Ele ia na feira de domingo, comprava um bocado de aimpins e minha mãe os cozinhava. À noite, sentávamos à frente da TV e assistíamos os programas de domingo, comendo aimpins com manteiga. Eu não fazia ideia de que sentia tanta falta disso até que passei pela feira e não pude me conter em fazer a compra no lugar do meu pai.

Quando cheguei com a sacola em casa, minha mãe me deu um abraço tão apertado que eu não soube exatamente o que fazer. Ela me soltou, seus olhos ligeiramente marejados e pegou a sacola, indo para a pia. Apesar de saber que ela estava chorando, ela não se virou para mim em momento algum enquanto os descascava. E eu preferi deixá-la com suas memórias e ficar com as minhas.

E, agora, Pepê estava tendo as dele, encarando a televisão, em silêncio. Minha mãe lhe deu um tapinha fraco em seu ombro e foi para a cozinha e eu me deitei no sofá e fiquei encarando o teto.

Acabei pensando nas palavras duras de Pepê.

Eu sabia que ele e Drica eram amigos de longa data e eu deveria ter pensado nisso antes de me meter em algo com ela. Agora, eu não ia voltar atrás.

Não tinha intenção de magoá-la, como havia dito, mas também não queria iludi-la com minhas histórias sobre São Paulo, tinha a intenção apenas de prepará-la para o baque de diferenças culturais que ela sofreria em alguns meses.

Mas também não tinha intenção em nada sério. Queria dar uns beijos, talvez algo mais, mas não queria criar raízes em um lugar que eu não estava planejando ficar por muito tempo. Parecia, para mim, que Drica também não tinha essa intenção.

Era como quando eu era adolescente. Amores de verão, acho que era isso que eu procurava. Com um sorriso, me lembrei de algumas histórias interessantes durante o verão e soltei uma risadinha ao recordar-me que a prima dela povoada essa lista em que eu planejava colocá-la. Há muito tempo atrás, uns dois anos antes de eu meter o pé dali, nós estivemos juntos por quase dois meses, às escondidas.

Pepê saiu de seu transe e pôs-se de pé.

- Acho que acabou minha mordomia - ele disse. - Vou trabalhar porque eu tenho muita coisa pra fazer o o mané do meu irmão é bom demais para me ajudar.

Deu um chute na sua canela, apesar de saber que ele não pararia com suas cutucadas até eu conseguir um emprego ou resolver ajudá-lo.

Engolindo os receios e todos os meus pensamentos confusos, pedi-lhe:

- Me dá uma carona até A Caverna?

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