6.1 AJUDA

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CAPÍTULO SEIS - FUGINDO DA VIDA QUE EU NASCI PARA TER

Lá estava eu, na sala da minha mãe, depois de mais de uma semana no Rio e ainda sem nenhuma notícia boa sobre qualquer emprego. Nenhuma ligação para as vagas que eu havia mandado currículo pela internet ou entregue nas lojas dos centros comerciais da região. Durante a semana, tentei ainda colocar currículo no centro, em um shopping da Barra da Tijuca e ainda em algumas lojas da Zona Sul.

O bom daquilo tudo era que eu finalmente tinha ido à praia. Coloquei currículos de manhã, na companhia da minha cunhadinha e, assim que ela se entediou e apareceu com óculos na cabeça e um coco na mão, fomos para praia e passamos boa parte da manhã lá.

Foi bom, muito bom, para alma. Mas meu bolso continuava vazio e nenhum emprego parecia sequer passar perto de mim.

Domingo à noite e eu não tinha nenhuma vontade de sair ou de fazer qualquer coisa além de comer aqueles deliciosos aimpins com manteiga e assistir Faustão.

Merda de vida.

Ao menos eu podia implicar um pouco com meu irmão mais novo e isso sempre melhorava o meu dia. Ele e Cela estavam sendo super parceiros e me ajudando a melhorar meu humor. E Drica...

Tirei uma foto do meu prato com Aimpins e manteiga e mandei para o meu irmão. "Mané, olha só o que cê tá perdendo" escrevi. Mas meus pensamentos estavam na morena.

Drica era uma coisinha fácil de ficar irritada, mas dócil, inteligente e educada. Ela era fácil de conversar, parecia saber um pouquinho de muitas coisas, embora fosse um pouco inocente sobre a maioria delas. Uma menina em um corpo de mulher e com mais responsabilidades do que alguém da idade dela deveria ter.

Amanhã. O pensamento fez a ansiedade ser ativada em meu corpo. Drica estava toda interessada desde o nosso esbarrão no shopping e eu sabia que se eu agarrasse na rua, ela iria aceitar de bom grado. Porém, ela só tinha dezessete anos... E apesar das histórias que eu ouvira pelo meu irmão e seus comparsas, eu queria lhe dar alguma coisa mais tranquila. Dar tempo para ela assimilar.

E eu também estava apostando em conseguir outros encontros e mais beijos se eu a tratasse decentemente, claro.

Meu irmão surgiu pela porta da cozinha apenas cinco minutos depois de eu lhe mandar a foto, o que significava que ele estava de moto.

- Cadê, mãe! - berrou, entrando. Minha mãe estava no banheiro e provavelmente não o ouviu, ainda mais com a minha gargalhada abafando. - Achei!

Pratos batendo e garfos arranhando, além de alguns barulhos de microondas depois, Pepê estava sentado ao meu lado, saboreando o mesmo aimpim que eu. Peguei mais um prato, enquanto ele reclamava:

- Você tem que me avisar dessas coisas antes, cara - soltou, de boca cheia, quando eu retornei para a sala. - Ela não faz essas coisas sempre, só tá fazendo porque você, seu cuzudo, tá em casa.

- Cê não tinha que tá trabalhando, não? - reclamei. - Tá comendo todo o meu aimpim e ainda dizendo que eu tinha que ter te avisando antes pra quê? Pra você comer mais?

- Claro - concordou. - E não fala de trabalho, não.

Meu irmão brincalhão se foi e ficou o bandido sério e responsável, que parecia bastante zangado e cansado.

- O que foi? - perguntei.

- Você tem certeza sobre não querer... Sabe? - perguntou-me. Congelei em meu lugar, sem saber o que lhe dizer. - Me colocaram pra gerenciar todas as bocas da favela, tá dando uma merda imensa e eu não to conseguindo. Tem algum panaca roubando droga e eu ainda não descobri o merda. - Ele fechou a mão em punho e a ideia de que meu irmão já era implacável com roubo e traição e o que ele faria quando descobrisse quem era embrulhou meu estomago - Tô precisando seriamente de ajuda. E você não tá fazendo nada...

Suspirei e olhei para a TV, comendo os aimpims. Eu não sabia o que fazer, eu não queria desistir daquela maneira, depois de ter me esforçado tanto e por tanto tempo...

- Paulo... Você sabe que eu não gosto disso - murmurei.

Ele bufou. Espetou seu aimpim com mais vontade.

- Eu sei que você tá na merda, tá? Deixa de ser orgulhoso, caralho. - Pepê estava rugindo, embora seu tom de voz fosse devidamente controlado. - Eu tô precisando de ajuda, você tá precisando de ajuda. Vamos nos ajudar, é simples.

Revirei os olhos. Duvidava que ele estivesse com tantos problemas quanto dizia. Estava fazendo isso para me ajudar, era bem óbvio.

- Eu vou pensar sobre isso - disse.

E o pior é que eu estava mesmo pensando sobre isso. Não queria, claro, mas mais algumas semanas naquilo e eu não ia aguentar.

- Tenho uma boca quase do lado dA Caverna - Pepê disse, com um sorriso besta no rosto. - Ela é sua, se quiser.

Revirei os olhos e lhe dei um soco no ombro, rindo. Ele gargalhou gostosamente.

- Vê se me erra, tá bom? - Emburrei.

A menção dA Caverna me levou de volta aos pensamentos sobre Drica e nosso encontro no dia seguinte. Estávamos conversando sempre por mensagens, mas faziam alguns dias que eu não a via. Ela estava sempre ocupada e eu atrás de emprego, quando eu chegava em casa, ela já estava no bar e eu estava cansado demais para ir lá.

Hoje, porém, eu estava bem. Talvez devesse passar lá apenas para dar-lhe um gostinho do nosso encontro. Deixá-la animada.

Pepê estava me olhando com aquela expressão travessa que sabia exatamente no que eu estava pensando e eu só revirei os olhos quando eu percebi.

- Você tá caído por ela, não tá não? - riu.

Empurrei-o com o cotovelo, sem querer me entregar, mas estava estampado na minha cara. Não que eu não tivesse olhado para outras garotas ou qualquer coisa do gênero, mas havia algo na Drica que tinha simplesmente me pegado desprevenido.

A princípio, tinha sido apenas sua beleza exuberante. A pele morena, os cabelos cacheados armados, o rosto fino, com lábios grossos e olhos escuros expressivos, combinado com um corpo escultural de seios e glúteos fartos. Agora, porém, isso era apenas um detalhe. Provavelmente fora ofuscado pela sua inocência, misturada com a sagacidade que ela só ela tinha. E, então, tinha o fato que ela parecia muito comigo, em sua idade, sonhando com um futuro melhor.

E, enquanto ela sonhava, eu encarava a dura realidade de que o meu sonho estava prestes a se tornar um pesadelo.

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