5.3 CONVITE

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Apesar de as brincadeiras de Mila estivessem me fazendo relaxar, eu estava tensa. Andando pela rua, a caminho do bar, gravei uma mensagem de som para ela, lhe contando o que estava acontecendo por alto e pedindo um conselho, já que Cela havia mandado uma sucessão de mensagens inúteis, me incentivando a desmaiar ou algo assim, com seu conselho "se joga!".

Ela me respondeu rapidamente. Ouvi sua mensagem, já entrando no bar.

"Se esse for aquele João, se joga. Ele beija bem..."

"Quem?" Ouvi a voz de Talles, ao fundo, subitamente interessado. Então eles tinham ficado mesmo. Fiquei um pouco incomodada, mas tinha sido há tempo demais para me importar.

"Cale a boca" Ri, vendo que ela estava brigando e batendo nele. "E depois eu te falo mais coisas..."

"Não, fale agora!" Ouvi Talles, novamente. Parecia zangado.

"Arg!" Mila reclamou. "Só apoio, Drica. Apoio muito. Se joga!"

Que coisa era aquela de "Se joga" que as duas resolveram combinar de dizer pra mim ao mesmo tempo? Eu queria algum conselho útil!

- Cheguei - anunciei pra minha mãe, batendo na porta de correr.

Abri-a e minha mãe me cumprimentou com um sorriso, lavando a louça que estava suja. Tomei seu lugar rapidamente e deixamos a porta entreaberta para vermos quando entraria algum cliente. Não estava muito cheio, no meio da semana e naquele horário, era comum. Mas logo o pessoal começaria a passar para levar lanche para casa e nós tínhamos uma torta para entregar a alguém que já deveria ter chegado.

Lavei toda a louça e me ocupei do meu lugar no balcão, enquanto descascava batatas, já que ninguém aparecia. Por incrível que parecesse, descascar batatas era uma das atividades que eu mais gostava do trabalho - eu não odiava tudo de todo, eu até gostava de cozinhar e ajudar a minha mãe, embora pudesse descartar as cantadas dos bêbados, o problema maior era ter que fazer isso o tempo todo, quase sem descanso. Porém, não era comum que eu o fizesse, minha mãe normalmente descascava tudo sozinha, da cozinha, longe dos olhares dos clientes.

Minha mãe encerrou minha atividade de cortar batatas assim que o moço chegou para pegar a torta. Eu embalei-a com cuidado, ajudando-o a carregar até a entrada do bar, junto com as duas garrafas de refrigerante, que ele guardou em sua mochila, enquanto eu segurava a torta.

Fiquei olhando a rua por um momento, e assim eu vi JP a distância. Quase uma coincidência grande demais para ser verdade.

- Oi - ele me cumprimentou, se aproximando.

Deixou um beijo estalado em minha bochecha enquanto eu lhe murmurava um "oi!" quase esganiçado. Um beijo. Um só.

Ri.

- Dois - disse-lhe novamente, levantando dois dedos no ar e me aproximando para lhe dar um outro beijo em sua bochecha.

- Costume - ele deu de ombros.

Se joga. As mensagens de Cela e de Mila estavam dançando na minha mente, enquanto eu sorria sem jeito para JP, sem saber como agir. Era para elas terem me dito o que fazer e não se joga. Se joga era totalmente inútil.

- Então... Está livre? - perguntou.

Seu olhar passou pelas mesas do bar, todas desocupadas, com um sorriso leve no rosto, ao ter sua resposta antes mesmo que eu a proferisse.

- Por enquanto - respondi-lhe. - Não por muito tempo.

Ele concordou com a cabeça e me pareceu um pouco decepcionado. Minha barriga deu uma cambalhota ao redor dela mesma e eu me peguei mordendo meu lábio inferior.

- Bom, então por que você não nos pega bebidas e vem sentar aqui fora comigo um pouco? - ele perguntou.

Concordei com a cabeça e ele sorriu, contente. Entrei, peguei meu celular, digitei uma mensagem desesperada e cheia de erros para Cela, copiando e mandando para Mila, peguei uma Fanta e uma cerveja, além de dois copos, e corri lá para fora. Senti o olhar da minha mãe em cima de mim, mas enquanto não tivesse ninguém no bar ou eu desse conta do recado, eu podia fazer o que quisesse que ela não falaria nada.

- Pronto - deixei as latinhas na mesa e JP tirou os copos de minha mão, enquanto eu sentava.

- Deixa que eu coloco - disse. - Você faz muito isso, todo dia.

Sorri-lhe doce pela sua sensibilidade e agradeci, quase emocionada, quando tomei meu refrigerante.

- Desculpa se eu tiver que sair correndo qualquer hora - avisei-lhe, antes que eu precisasse e ele não entendesse nada.

Balançou a cabeça em concordância e bebericou sua cerveja, me encarando.

- Bom, já vi que não vamos ter muito tempo pra conversar hoje? - riu. Eu dei de ombros. - Hm... A gente podia sair de novo, qualquer dia desses. Quando você pode?

Acho que meu coração parou de bater.

- Como... Como... - gaguejei pateticamente e tomei uma lufada de ar antes de continuar. - Como num encontro?

- Sim, como num encontro - Ele respondeu, rindo. - Tudo bem?

Concordei com a cabeça, meio aérea. Ninguém nunca tinha me chamado para ir a um encontro e eu achava que isso só acontecia naqueles filmes bregas da TV, não na vida real.

Suspirei.

- Eu... Não sei. Eu fico aqui no bar todo dia... Menos... Bom, ontem - sorri, tristemente. Eu posso ver com a minha mãe, mas não sei.

- São todas as segundas, que você não fica no bar? - ele perguntou.

Concordei com a cabeça e ele sorriu.

- Então nós podemos sair na segunda que vem, sem problemas. - Continuou sorrindo daquela forma cativante e eu sorri-lhe de volta. - Podemos ver um filme e, dessa vez, você vai ter que comer pizza também!

Acabei rindo junto com ele e apoiei meu rosto com uma das mãos, tomando mais um gole do meu refrigerante, tentando encontrar algo decente para se dizer.

- Segunda está bem - eu lhe disse, mas a verdade era que eu queria dizer "Vamos sair agora mesmo!" - Só preciso falar com a minha mãe.

- Claro - concordou. - Quer que eu fale com ela?

- Não! - exclamei, rápido demais, fazendo-o rir. - Quero dizer... Deixe que eu falo com ela. Tá?

Ele riu e balançou a cabeça afirmativamente, nós dois acompanhando um grupo de três pessoas entrando no bar, conversando aos gritos. Olhei para ele, quase que pedindo desculpas.

- Preciso ir.

Ele apenas sorriu e se levantou junto comigo. Puxou-me pela cintura, fazendo com que eu sentisse calafrios loucos no local em que seus dedos se encontraram com a minha pele.

- Vejo você depois - disse, quase em minha orelha.

Deixou um beijo no canto do meu lábio e foi embora antes que eu conseguisse fazer meus pensamentos desembaralharem e lhe dizer qualquer coisa que não fosse "Ah... Ah...".

- Adriana? - Ouvi minha mãe me chamar, com urgência.

Corri para dentro do bar antes que isso lhe afetasse o seu humor e ela não permitisse que eu saísse em um encontro.

Um encontro!

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