5.2 MENSAGENS

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- Lave a louça enquanto eu tomo banho para abrir o bar. - minha mãe disse. - Quando eu acabar, você vai.

Não sabia porque minha mãe insistia em dizer as mesmas benditas coisas todos os dias, sendo que era a nossa rotina comum. Começávamos a cozinhar por volta das dez. Almoçávamos uma da tarde e, então, tínhamos uma hora de descanso para fazermos o que quisermos (ela dormia e eu ficava no computador ou no celular, com Cela), cozinhávamos mais um pouco e, então, por volta das cinco da tarde, ela ia tomar banho, eu lavava todas as louças que ainda estavam sujas, ela abria o bar e eu ia tomar banho. Então, eu fingia tomar um banho de uma hora, quando normalmente levava dez minutos e passava os outros cinquenta trancada no banheiro, mandando mensagens para Cela ou Mila, ou fazendo qualquer outra coisa agradável, por que queria enrolar ao máximo para ter que ir para o bar. Inevitalmente, eu tinha que estar lá antes das sete, quando a primeira galera trabalhadora começava a chegar do centro da cidade e o bar começava a ter algum movimento razoável.

Minha mãe tomou um banho rápido como quase sempre. Ela tomava um mais demorado antes de ir dormir, mas aquele era apenas para tirar o fedor do óleo - que ela teria de volta em cerca de meia hora, na cozinha do bar. Vai entender.

Subi as escadas, cantarolando alegremente ao ouvir suas chaves trancando o portão. Meu celular ficara jogado sobre a minha cama, depois do almoço, porque minha mãe sempre lançava olhares feios quando eu o levava para a cozinha, embora permitisse que eu levasse e utilizasse dele no bar.

Terminei de subir os degraus correndo, embora isso fosse fracamente recomendado na minha escada de metal em espiral. Eu tinha certeza que, se eu caísse ali, eu morreria. Mas estava morrendo mais ficando longe do meu celular.

Lancei-me sobre a cama e desbloqueei-o, apenas para encontrar trocentas mensagens (leiam três)não lidas. Abria-as rapidamente.

A primeira era de Mila, me perguntando se ela poderia usar aquele biquini no Rio sem as pessoas acharem que ela estava muito branca. Vinha com uma foto. Respondi.

"Ñ."

Depois pensei melhor.

"Vc vai parecer brank com qlqr coisa q usar."

Isso iria deixá-la neurótica e eu já estava rindo de que tipo de resposta eu iria receber assim que ela visse. Uma vez, eu fiz uma brincadeira assim e Talles me mandou uma mensagem de som pelo Whatsapp dela, dizendo que era para eu parar de falar besteira para a namorada dele porque era ele que tinha que desmentir cento e cinquenta e quatro vezes antes dela acreditar.

A segunda mensagem era de Cela. Perguntava se eu tinha visto JP durante o dia e qual era o status do nosso romance.

"Ñ enxe o saco."

Era por isso que eu perturbava a Mila. Cela me perturbava e eu tinha que descontar em alguém, né?

A terceira era de um número desconhecido que quase me fez cair da cama quando eu a abri.

"Oi, Dri. É o João. Peguei seu número com o Paulo, você não se importa, né?"

Se eu me importava? Claro que não! Porém, demorei dois minutos para me lembrar que Paulo era de Paulo Pedro, também conhecido como Pepê. As vezes me esquecia dos nomes dos dois, visto que quase nunca eram chamados assim. Principalmente porque Pepê era, normalmente, chamado de Pedro. Mas para o João Pedro, ele era Paulo. Vai entender.

Isso também explicava a mensagem de Cela. Ela, provavelmente, teria sabido que JP tinha pego meu número com Pepê e queria que eu a atualizasse.

Mandei uma nova mensagem para Cela, antes que ela achasse que eu estava escondendo coisas dela.

"JP me mndou 1 msg!!!!!!"

Voltei para a mensagem de JP e fiquei encarando a tela, tentando encontrar a melhor forma de responder aquilo. Cela me respondeu antes que eu pudesse.

"E O Q VC DISSE????"

"ND AINDA KCT" Respondi. Alô, Cela, se você não parar de falar, não vou conseguir! Pensei.

Abri a mensagem de JP novamente e soltei um suspiro. Vamos, me incentivei. Você consegue responder isso sem parecer uma completa otária.

"Oi, João! Claro que eu não me importo. Tá tudo bem?"

Parecia bom, então enviei. Tirei um print da tela e mandei para Cela, que aprovou. Contente, fui tomar meu banho rápido, antes que ficasse para última hora e eu acabasse levando bronca da minha mãe - para variar, claro.

Saí do banho correndo quando o celular apitou. O coração tolamente disparado, apenas para ver uma mensagem de Mila.

"Sai daqui! Tem sol aqui também, tá? EU TÔ MORENA!" e uma foto da mão dela comparada a um tronco de árvore.

Eu ri.

"Brank!" respondi, antes de deixar o celular sobre a pia e voltar para o chuveiro.

Ele apitou mais duas vezes, mas ignorei, continuando meu banho, certa que era apenas a revolta de Mila contra a minha mensagem.

Terminei cinco minutos mais tarde, enrolei-me na toalha e saí do chuveiro, pegando meu celular com as mãos molhadas para identificar que as duas mensagens tinham vindo de JP, não de Mila.

"Tô bem sim, Dri, e você, como que tá?"

E logo abaixo.

"Queria falar com você... Podemos nos ver mais tarde?"

Responder se eu estava bem ou não pareceu totalmente irrelevante depois da segunda mensagem. Tomei uma lufada de ar e olhei a hora, apenas para notar que só me faltava cerca de meia hora para ter que estar pronta para ir ao bar. Droga.

"Tenho que trabalhar daqui a pouco. Eu pego as 19hs"

Tinha que haver um jeito. Fui pensando enquanto pegava minhas roupas para me vestir. Coloquei um shortinho comum e uma blusinha mais larga, azul clara. Vesti minhas sandálias pretas e chequei o celular mais uma vez.

"Posso passar no bar pra ver você? Se estiver tranquilo, a gente conversa. Pode ser?"

AI. Meu coração pareceu dar três cambalhotas e então bateu no ritmo de uma escola de sampa em plena Sapucaí. Deus, meu!

"Sim, claro :)"

Tirei outro print e mandei para Cela, ao mesmo tempo em que uma nova mensagem de Mila chegava para mim.

"Estou mais morena que você agora!" E outra foto, essa era de seu rosto, todo pintado.

O que ela tinha passado na cara? Borra de café? Caí na gargalhada, enquanto descia as escadas, rumo ao bar.

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