5.1 IRMÃS

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CAPÍTULO CINCO - TODAS AS CHANCES CERTAS DE DAR TUDO ERRADO

"Cara, sua mãe é muito chata. Você é adolescente e está de férias, precisa viver!"

Apesar de concordar, em pontos, com Cela, eu sempre tentava acalmar os ânimos dela - e os meus também - sobre toda a carga de trabalho que minha mãe costumava colocar sobre mim. Eu entendia que era a única forma da gente ganhar dinheiro e se eu queria ter todas as coisas bonitas que ela me dava, era melhor eu ajudá-la.

No natal do ano passado, ela me comprara um notebook e eu celular. Tenho certeza que ela parcelara isso em infinitas vezes, mas a gente tinha que lhe dar um crédito.

- Eu sei, Cela - murmurei. Olhei ao redor, enquanto subia às escadas para o meu quarto, aproveitando que minha mãe tinha ido ao mercado comprar um ingrediente que faltava para conversar com Cela pelo celular, mas com medo que ela voltasse e me pegasse desprevenida - Mas as coisas aqui em casa estão apertadas e se eu passar no vestibular... Você sabe. Minha mãe vem me pagando quinhentos reais por mês desde que eu pedi e eu tô guardando. Se eu começar a pedir folga atrás de folga, ela vai tirar isso e eu não posso.

"Droga!" Reclamou. Ela sabia que eu tinha razão. Cela, as vezes, esquecia que as pessoas tinham que se esforçar para trabalhar e ter as coisas. Criada em família de ricos e, depois, casando com um chefe do tráfico... O dinheiro simplesmente acontecia na vida dela. E ela ficava emburrada como uma criança contrariada ao me ver trabalhar que nem uma louca para ter um terço das coisas que ela tinha. Não era nem por nada, ela só não conseguia entender muito bem. Quando ela morou comigo e minha mãe por quase dois meses, ela ajudava e era mais por diversão que qualquer outra coisa. "E a sua folga era ontem e você nem foi na praia com a gente!"

- Bom, eu fui ao shopping - a lembrança fez meu estômago revirar. Entrei no meu quarto, fechando a porta e encarando os presentes de Mila sobre a cômoda, suspirando. - Fui comprar o presente da minha prima... E encontrei com o JP.

Eu afastei o celular da orelha a tempo do grito de Cela não me surdar. "Você o quê?" Berrou. Meus tímpanos reclamaram, mesmo a distância, e eu não contive a careta.

"Como assim, me conta esse negócio aí" ela continuou falando sem parar, enquanto eu ria da sua animação. "Ai meu Deus! Vocês marcaram de sair e você não me falou nada? Sua traíra!"

- Não! - Cortei-a, antes que ela começasse a reclamar demais, brigasse e parasse de falar comigo. - Eu fui comprar o presente e encontrei ele na praça de alimentação. Ele disse que foi procurar emprego e tal. E a gente se esbarrou.

Ouvi o arfar animado de Cela e quase pude vê-la abanando as mãos de agitação. Joguei-me sobre a cama, de costas, encarando o teto e me lembrando do dia anterior com um sorriso idiota.

"E aí?" Incentivou-me a continuar.

- E aí a gente ficou conversando. Não foi nada demais. A gente conversou sobre a minha faculdade e ele me contou um pouco sobre São Paulo e como morar lá. Sabia que lá a chuva cai tipo assim, do nada? Não chuvisca tipo aqui não. - eu ouvi sua risada pela informação inútil e ri junto. - Então ele me falou que estava procurando emprego e tal. E aí voltamos pra casa.

"Ah, mas que droga!" Cela bufou de impaciência. "Foi só isso? Ele nem cantou você de novo? Nada?"

Senti meu estômago embrulhar ao lembrar. Eu sabia que eu estava sendo totalmente idiota, mas eu me apaixonei uma vez, em toda a minha vida, e tinha sido por ele. Pepê e eu sempre fôramos amigos e quando eu tinha uns doze anos, a gente descobriu que podíamos fazer festas. Como a casa dele era maior, eu vivia por lá e acabei encontrando com o JP muitas e muitas vezes. O Suficiente para saber que ele fazia tudo ao meu redor rodar. Uma das minhas amigas da época disse que isso se chamava amor e eu achei que tudo bem. Ele era tão inteligente, esperto e educado. Nunca olharia para uma menininha boba como eu.

Até que ele olhou. Demorou cinco anos, mas ele olhou. E eu quase não conseguia me conter, sentindo todas aquelas porcarias loucas que eu sentia antes.

- Ele disse que eu sou inteligente - murmurei. - E me chamou de doutora e vossa excelência. E me chamou de linda, uma vez, mas acho que foi reflexo.

"Ele te chamou de linda e você acha que foi reflexo?" Cela estava indignada.

Eu ri baixinho, lembrando do nervosismo que eu senti quando eu o ouvi dizer, e sentindo meu estômago dar uma cambalhota igualzinha a que deu na hora. Ele mexeu no meu cabelo quando eu pedi para parar a kombi na esquina da minha rua e disse.

- É! - Eu ri. - Foi quando eu ia descer. Ele disse "Linda, quer que eu te acompanhe até sua casa?" e eu disse que não precisava e foi tudo.

"Ele queria te levar em casa!" Ela estava tendo uma síncope nervosa, tinha certeza disso.

- É - eu ri baixinho. - Foi só isso, nada demais.

"Nada demais!" ela ironizou.

- Nada demais - confirmei.

Estava tentando me convencer que era nada demais, mesmo. Eu não queria me iludir demais e não dar em nada. Cela não estava ajudando.

A verdade era que eu tinha medo. Ao ver nada dando certo para a minha mãe, no gênero amoroso, eu preferia não me envolver com ninguém. Ficava com um cara ali, algum aqui e, vez ou outra, se ele beijasse muito bem, eu aceitava uma segunda vez e quem sabe uma terceira, mas nunca passava disso. Tinha medo de começar a me importar e, então, me magoar que nem ela.

E também não queria me envolver com alguém que pudesse ser um motivo para eu não sair de casa, para estudar.

"Do jeito que isso está indo, logo logo seremos irmãs" ela riu.

- Cela! - reclamei.

"Irmãs!" exclamou, feliz demais para se conter.

- Marcela, pare! - Eu exclamei. E, por eu ter usado o seu nome, seu riso foi diminuindo até cessar. - Não me constranja, tá? Chega.

"Está be-"

- Adriana! Cadê você? - Ouvi a voz da minha mãe me chamando e isso interrompeu Cela, como se ela também pudesse ouvir.

Pus-me de pé em uma velocidade impressionante e sussurrei para Cela:

- Minha mãe chegou, tenho que ir. - Desliguei, sem dizer mais nada. - Estou no banheiro, mãe! - acrescentei, bem alto, para minha mãe ouvir, do andar inferior. - Já estou indo!

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