4.3 ENCONTRO

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- Oi! - cumprimentei-a, animado. Não estava esperando conseguir um tempo a sós com ela tão cedo e eu ainda não tinha me resolvido com o problema dela ser tão nova.

Ela não tinha nem dezoito e eu ainda me lembrava de quando ela corria para cima e para baixo com Pepê, arrumando encrenca. Não tinha corpo nenhum, nem peitos. E agora ela tinha uns bem grandes e seu corpo era maravilhosamente no formato perfeito de um violão.

- Olá - sorriu e pareceu um pouco sem jeito.

Continuei sorrindo para ela e dei um beijo em sua bochecha, sentindo seus lábios na minha, suas mãos esbarrando levemente em meu ombro. Eu me afastei e ela se virou para me dar outro e, por um segundo, achei que seus lábios roçariam nos meios, mas apenas me deu outro beijo, na outra bochecha.

- Dois beijos! - riu, levantando dois dedos da mão livre no ar.

Gargalhei, notando que ainda não havia perdido a mania de São Paulo, um beijo só para cumprimentar, como se não pudéssemos perder tempo sendo mais cordiais.

Com a sensação dos lábios de Drica em minhas duas bochechas, eu só podia crer que eu gostava do segundo beijo.

- É, eu sei - dei de ombros. - Me acostumei com lá, estou estragado.

Ela riu novamente e pôs-se na ponta dos pés e escorregou para baixo de novo. Repetiu isso algumas vezes até eu perceber que ela estava incomodada. A pizza em minha mão pareceu pesar um pouco mais e eu me senti um completo pateta por não saber desenvolver uma abordagem com uma garota de dezessete anos.

- Quer me acompanhar? - perguntei.

- Eu já comi - ela sorriu.

Sentei-me na mesa com o pensamento de que eu já sabia que ela havia comido, mas eu queria sua companhia, queria conversar e queria saber se eu tinha qualquer chance de explorar seu corpo com as minhas mãos.

- E uma bebida? Companhia para voltar pra casa? - sugeri.

Ela riu e acabou se sentando na cadeira à minha frente, um pouco mais relaxada.

- Tudo bem. Eu vou gostar de ter companhia pra voltar pra casa.

- Não quer mesmo um pedaço? - ofereci-lhe garfo e faca, mas ela rejeitou - E uma bebida? Você só não bebe no bar ou...?

- Não bebo - murmurou, com um sorriso. - Eu acho que ver tanta cerveja todo o dia me fez ter alguma espécie de rejeição.

Gargalhei com o que ela disse e ela pareceu sorrir, orgulhosa de si mesmo. Recordei-me do conselho de meu irmão; ela gostava de ser delicadamente elogiada, então procurei algo sensato para dizer.

- Comentário sagaz, como no outro dia. Você tem sempre uma resposta para tudo?

- Quase sempre - riu.

Percebi que seus ombros escorregaram um pouco para baixo e ela se sentou mais confortável na cadeira, relaxando com a minha companhia.

- Mas um refrigerante, aceita? - perguntei.

Ela concordou com a cabeça e, ao sussurrar Fanta Laranja, lhe arrumei uma.

- Então, já terminou a escola? - perguntei, entre uma garfada e outra.

Ela concordou com a cabeça, tentando empurrar uma mecha de seu cabelo encaracolado para trás da orelha.

- Sim. Me formei em Turismo na FAETEC, com a Cela. Prestei vestibular no ano passado.

- E passou? - perguntei, realmente interessado.

Ela mordeu deus lábios carnudos, me obrigando a tomar um longo gole de cerveja para me acalmar. Pareceu nervosa e, sem que ela me dissesse, sabia que o resultado ainda não tinha saído.

- Ainda não sei.

Eu sabia como tinha sido esperar o meu resultado também e, quando saiu, eu queria simplesmente pegar todas as minhas coisas e meter o pé. Meu pai me conteve e me ajudou a escolher um local para morar e arrumou a mudança. Correu tudo bem, do jeito dele.

- Mas uma moça inteligente como você, certeza que vai passar - murmurei. Ela sorriu e sussurrou um obrigada quase inaudível. - Prestou pra quê?

Ela estufou o peito e pude ver, em sua expressão, que ela tinha certeza do que queria. Era a mesma maneira que eu tinha certeza sobre jornalismo e como eu amava no que eu havia me formado, mesmo sendo descartado e rejeitado pelos meus colegas de profissão por causa do passado do meu pai.

- Direito.

Parei com o garfo a meio caminho da boca e a encarei, a boca entreaberta, esperando a comida chegar, mas que ficou dessa forma pela resposta que recebi.

- Direito? - estava realmente impressionado. - Uma doutora, então?

- Um dia - sorriu-me, parecendo mal conseguir se conter para esse dia chegar logo.

Sorri-lhe de volta e finalmente deixei a pizza chegar à minha boca. Mastiguei rapidamente e tomei mais um gole de cerveja para ajudar a descer.

- Sua mãe deve estar morrendo de orgulho - sorri-lhe. - Uma filha doutora!

O sorriso dela desmanchou e eu percebi que havia dito algo errado. Fiquei franzindo as sobrancelhas para ela, sem entender, até que ela suspirou.

- Nem tanto... - murmurou. - Ela não gosta muito da ideia de eu deixá-la sozinha com o bar. Quer que eu fique ajudando ela e tal. Eu tô tentando alguma coisa em outro estado porque sei que se eu ficar aqui, eu não vou conseguir estudar.

Droga.

Fiquei encarando-a durante o tempo, vendo que, como eu, ela estava presa na mediocridade da família dela, enquanto nossos sonhos eram muito mais altos que isso.

- Então, Doutora Adriana, para onde vossa excelência está pensando em ir? - perguntei, com um sorriso.

Ela deu de ombros, sorrindo também, contente que eu não estava julgando-na.

- São Paulo, talvez? - riu. - Tenho alguns amigos lá. Acho que posso fazer isso, sabe? Quero tentar.

Concordei com a cabeça. Foi esse mesmo pensamento que me tirou dali. Lembrei-me do terror que tinham sido os meses antes do resultado do vestibular e, então, as semanas, que pareceram anos, antes de eu me mudar para São Paulo.

Eu tivera o apoio do meu pai. Adriana, nada tinha.

Subitamente, achei que eu deveria ser seu mentor e, por mais que eu não pudesse ajudá-la financeiramente, como meu pai havia feito, talvez eu pudesse lhe preparar para enfrentar os terrores da maior cidade do país. Talvez começando pela dificuldade em se encontrar uma praia?

- E, então, quer ouvir como é morar em São Paulo? - perguntei.

Adriana concordou com a cabeça, sedenta por informação.

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