4.2 CURRÍCULO

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Despedi-me de minha mãe com um beijo e com o coração apertado pelos meus pensamentos malucos.

Não queria desistir da minha vida correta, queria tentar e me esforçar em conseguir um trabalho, mas, ali, de volta ao convívio daquele meio tão rápido de se conseguir muito dinheiro, não ia demorar muito para que eu cedesse. Eu sabia. Deveria ter alguma genética fraca na minha família.

Abanei minha cabeça, enquanto descia a rua para pegar a condução da rua que beirava a linha do trem. Ainda nem tinha tentado arrumar um emprego decente e já estava entrando em pânico, achando que eu não ia conseguir. Mas a verdade era que, se em São Paulo, longe da influência, eles não tinham me aceitado, aqui no Rio ia ser um pouco pior. E eu já tivera minha cota de portas na cara e nãos.

Preferi desistir de um emprego na área jornalística por hora, era melhor tentar conseguir algo mais simples a princípio e depois tentar algo na minha formação, talvez em alguma emissora ou jornal - qualquer coisa, eu toparia.

Peguei a Kombi e fiquei bem impressionado com a forma que ela conseguia ainda andar, mesmo estando tão caquética. Não me recordava delas serem latas velhas assim.

Passei por uma das bocas que Pepê geria e ela estava sem nenhum movimento - talvez fosse folga para todo mundo, afinal. Ao passar pelo bar da tia Marta e encontrá-lo fechado, assim como as lojinhas ao redor dele, puxei na memória a recordação de que o comércio raramente funcionava nas segundas-feiras.

Legal. Eu só esperava que não fosse a mesma coisa fora da favela.

Suspirei em alívio ao descer no centro comercial da região e encontrar tudo aberto. Ah, aquela era umas peculiaridades da favela. Já tinha me esquecido.

Passei no Guanabara e deixei meu currículo por lá. Deixei nas farmácias, também, e no outro supermercado, do qual não me recordo o nome, antes de atravessar. E aí fui deixando de loja em loja, em um trabalho de formiguinha. Nunca havia feito isso antes, todavia estava desesperado. Ninguém estava me dando muita atenção e parecia que todos os cargos disponíveis tinham sido ocupados no natal e só teriam vagas se alguém fosse mandado embora.

Eu estava um mês e meio atrasado. Ótimo!

Continuei indo de loja em loja, até que fui bem recebido no Ponto Frio, na metade do calçadão. Ao falar que eu queria deixar meu currículo, fui avaliado de cima a baixo por um dos vendedores, ao que ele sorriu e pegou meu envelope pardo. Abriu, deu uma olhada no que estava escrito e pareceu bem feliz com o que viu.

- Você fez USP! Nossa! - riu. - Vem, vou te levar na gerente. Conversa com ela, vai que ela gosta de você e tal.

Fiquei tão aliviado que era possível que eu me mijasse nas calças. Porém, tomei uma lufada de ar e o acompanhei até o segundo andar, onde ele me pediu para aguardar, enquanto entrava na área restrita à funcionários.

Após ficar uns dois minutos lá, ele retornou fazendo um legal com a mão e me convidou para entrar. Guiou-me por um emaranhado de corredores, até que parou em frente a mais uma porta e bateu.

- Pode entrar - uma voz feminina e forte anunciou.

O cara acenou para que eu entrasse e eu me esgueirei para dentro, pedindo licença.

- Você deve ser o João Pedro - ela estendeu a mão e eu apertei.

Passamos a próxima meia hora comigo explicando o motivo de eu querer trabalhar no Ponto Frio, sendo formado em Jornalismo. Com sorte, encontrei uma desculpa eficiente, dizendo que me mudara para o Rio para tentar a vida, mas que os empregos de jornalismo estavam pagando pouco e eu achava que ganharia mais com comissão em alguma loja grande, e ela parecei aceitar isso.

- Gostei muito de você, João - sorriu. - Mas a gente está um pouco apertado ainda com as contratações do natal. Eu vou ver com calma depois do feriadão e entro em contato com você, pode ser?

Eu saí um pouco decepcionado de lá porque esperava um retorno rápido. Depois do feriado significava que ela demoraria cerca de um mês para me retornar. Resolvi tentar as lojas do shopping e fui de uma em uma, até que meus pés estivessem doloridos e eu precisasse me sentar.

Cheguei até a praça de alimentação, arrastando os pés e me joguei em uma das mesas dali, abaixando a cabeça e respirando fundo. Meus pés pareciam em brasa e eu estava morrendo de fome também. Que horas deveriam ser? Meu estomago roncou quando eu conferi que eram quase sete da noite. Estava rondando sem rumo há umas seis horas, pelo menos!

Fui até o Mr. Pizza e pedi uma média e uma cerveja. Voltei a me sentar numa das mesas, quando meu olhar reconheceu curvas. Eu não tinha certeza, mas umas dez mesas de distância, em uma praça de alimentação vazia, achei ver Drica comendo um sanduíche com tranquilidade, com algumas sacolas de compra. Parei de prestar atenção na senha da minha comida e comecei a vigiar a morena, ali, tentando encontrar a certeza.

Pensei em caminhar até lá, mas se não fosse ela, seria um mico e eu passaria por um idiota. Ela estava de costas para mim, então ou eu ia direto até ela, ou eu dava a volta na sua mesa e passaria vergonha se realmente a fosse.

Aguardei. Ela parecia estar acabando de comer e, quando se levantasse, eu poderia tirar a certeza. Mas eu tinha a leve impressão que aquelas pernas naquele shortinho... Ah, só poderia ser ela.

Chamaram minha senha na pizzaria e eu me embolei para ir pegar. Quando retornei à mesa, ela estava se levantando. Corri até alguma mesa mais perto e a vi de perfil.

Era ela.

Como uma menina podia ser tão linda assim?

- Ei! Drica! - chamei-a. Ela virou-se automaticamente em minha direção e se abriu levemente. Acenei para ela com a mão que segurava a cerveja e ela sorriu, doce, se aproximando, quase cautelosa, arrastando suas sacolinhas em minha direção.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!