4.1 SAINDO DO MARASMO

2.9K 260 24

CAPÍTULO QUATRO - MENTOR DE UMA FUTURA DOUTORA

- Vai sair, filho? - Minha mãe me perguntou, enquanto dourava carnes moídas no fogão.

Eu sorri à imagem. Tinha me esquecido que ela passava boa parte do dia na cozinha, não por trabalho ou por ter coisas demais pra fazer, mas porque simplesmente gostava.

No canto, em uma prateleira acima da pia, um rádio tocava uma seleção apurada de músicas de axé, pagode e MPB, que eu a ouvira cantarolar acompanhando enquanto eu me arrumava para sair.

Não era tão difícil admitir que eu sentira saudades de casa. Não daquela vida complicada e daquelas ruelas e casas disformes, os vizinhos gritando e, às vezes, a beira da pobreza, mas da minha casa e da minha família.

E eu tinha que admitir, desde que eu me mudara, quase seis anos atrás, as coisas tinham melhorado por ali, ao menos na questão financeira. Porém, em contrapartida, o tráfico parecia mais forte e com menos temor. O que antes, eles faziam na surdina e na calada da noite, se esforçando em parecerem discretos, agora era ao Sol do meio-dia, armados até os dentes e puxando um cigarrinho.

- Vou - confirmei. - Mas só depois de comer o almoço delicioso da minha mãe maravilhosa.

Ela sorriu abertamente e eu passei o braço ao redor dela, me curvando para deixar um beijo em sua bochecha carnuda.

- Cheira bem - apreciei.

Funguei o cheiro gostoso da comida e aspirei em quase alívio, se fosse possível saciar a fome com cheiros deliciosos, a comida da minha mãe erradicaria a fome na mundo inteiro. Ela riu quando eu a soltei, murmurando "hmmm" em satisfação.

- Aposto que lá naquela São Paulo não tinha comida gostosa como a minha - gabou-se.

- Nem perto - ri.

Até mesmo porque eu viveram um bom tempo de miojos, biscoitos e comidas congeladas, antes de me dar conta de que eu deveria aprender a cozinhar alguma coisa se eu quisesse viver até depois dos trinta.

Mas era um lixo comparado àquela maravilha que era a comida da minha mãe.

- Seu irmão vem comer aqui quase todo dia - contou, orgulhosa. - A menina dele cozinha bem, também. Ensinei-a um truque ou dois, a Marta também lhe ensinou umas coisas. Mas é mais perto, sabe, do trabalho. Então ele almoça aqui, quase sempre.

Suspirei, rindo um pouco. Minha mãe chamava o que ele fazia de trabalho... Ok.

- Hoje não. Hoje é a folga dele. - continuou. - Pediu pra você ligar pra ele. Ele tá indo pra praia, quer saber se você quer ir.

Entortei a cara. Querer, eu até queria. Eu não conseguia me lembrar quando fora a última vez que eu fora a praia... No segundo ano da faculdade, eu acho. Com os amigos, para o litoral de São Paulo em um feriado - e a gente gastou praticamente o mesmo tempo que passamos na praia no engarrafamento para chegar e sair de lá.

- Hoje não vai dar - murmurei, quase mudando de ideia e indo tirar minha roupa arrumada e vestindo um calção. - Vou procurar trabalho.

Minha mãe sorriu doce ao tirar os olhos da comida e virá-los, marejados, em minha direção.

- Meu menino inteligente e esforçado - elogiou, suspirando e voltando a atenção para as suas panelas. - As vezes, eu queria que seu irmão fosse só um pouquinho mais como você... E você um pouquinho mais como seu irmão.

- Mãe! - Reclamei.

Ela riu, mas deu de ombros e continuou naquela calma e serenidade que sempre aparentava. Eu não me lembrava de tê-la visto perdendo a cabeça uma vez sequer, nem quando ele foi preso ou, depois, morto. Embora eu não estivesse por perto para ver, eu conversei com ela por telefone por longas horas durante as semanas seguintes e ela parecia tranqüila, embora magoada e de luto.

- Seu irmão poderia ter estudado um pouco mais... E você poderia ser mais apegado à sua família - disse.

Eu odiava quando falávamos sobre isso e não era a primeira vez que me acusava disso. Estava certa, eu sabia, mas era difícil para mim, ver daquela forma. Eu só queria me livrar das amarras que me mantinham naquele lugar e, quando eu pudesse, tiraria minha mãe daquele fim de mundo e eu poderia me apegar à ela, longe dali. Ali não dava.

- Mãe... - reclamei mais uma vez, dessa, porém, era mais uma súplica.

- O almoço está pronto - anunciou.

Ela se afastou do fogão, deixando que eu me aproximasse para tirar minha comida, e foi até a pia, lavar a louça já suja, cantarolando uma música do Roberto Carlos, que tocava na rádio. Eu estava com um nó na garganta e já não sentia tanta fome assim.

Olhei para minha mãe, enquanto tirava o arroz. Eu a amava, amava muito. Tive muitas chances de entrar para o tráfico, mas meu pai me fez prometer que eu não iria, que eu deveria estudar e dar um futuro melhor para a minha mãe, longe dali. Na época, eu acho que ele já sabia que as coisas não iam bem, mas nada dizia.

Prometi para o meu pai que eu estudaria e eu estudei. A outra parte da promessa, estava sendo complicada e era o fantasma dele que estava estragando tudo.

E lá estava ela, aquela mulher forte e calma, aguentando tudo que acontecia ao seu redor, sem parecer nem um pouquinho abalada. Tinha acompanhado o marido subir a cada degrau do tráfico e, então, despencar de lá do alto, em uma terrível queda. Agora, acompanhava o caçula seguir pelo mesmo caminho. Ela não tinha o mesmo medo que eu? De que, logo, ele despencaria também? E, pra completar, lá estava eu, o primogênito, com um diploma na melhor faculdade do país e nenhum emprego, acumulando dívidas enquanto o filho bandido acumulava zeros. Como ela conseguia aparentar tanta certeza e tanta calma no meio daquele furacão?

Ah, mãe. Sentei-me para comer, lamentando. E se eu não conseguisse o emprego que eu precisava? Minhas contas estavam se acumulando e, no banco, eu já estava no vermelho. E se eu aceitar a oferta do Pepê? Você aguentaria outra perda?

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!