3.3 SHOPPING

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Caminhei até a frente do bar, novamente, a rua que beirava a estação de trem e uma das principais da favela. Apesar de ser segunda-feira à noite, não demorou muito para passar uma Kombi.

Não gostava muito de andar nessas Kombis, elas estavam sempre caindo aos pedaços, enferrujadas e desconfortáveis e era até possível você ver a rua passando por alguns buracos no chão de algumas. Essa era daquelas e eu me peguei encarando o maldito buraco, até desembarcar perto do centro comercial do bairro, deixando-lhe uma pequena parte do dinheiro que a minha mãe havia me dado.

Atravessei a linha do trem e passei pelos camelôs que começavam a montar suas barraquinhas pelo calçadão, agora que o Sol não castigava tanto e começava a cair.

Tinha de tudo naquele lugar: roupas, sapatos, doces, salgados, jóias, maquiagem, eletrônicos, CDs, capas de celular, relógios artesanato... Acho que era possível até comprar documentos falsos por ali, se você soubesse procurar.

Mas pelo dinheiro que minha mãe havia me dado, ela pretendia que eu comprasse algo relativamente bom para Mila, não alguma lembrança de camelô. Tinha certeza que se fosse qualquer outra pessoa, eu teria trinta reais e seria o suficiente. Mas Mila era...

Suspirei, os meus pensamentos me cansando mais do que a caminhada até o shopping. Minha mãe sempre tentara impressionar a minha tia, enquanto ainda era viva. Enquanto minha mãe se mudara de São Paulo para o Rio atrás do meu pai, que estava tentando uma carreira de jogador de futebol - que logo se encerrou quando ele começou a se envolver com drogas e acabou morto por causa das dívidas das mesmas -, minha tia se casou com um político em ascensão e acabou prosperando na vida.

E apesar da nossa humildade toda, minha mãe sempre achava um jeito de demonstrar que estávamos por cima. Tive que ouvir alguns comentários pouco agradáveis quando minha tia morreu, minha mãe dissera que fora o estilo de vida caro que a matara, o que eu discordava. Tinha sido uma fatalidade terrível; minha tia era um doce de mulher, atenciosa e carinhosa e pagava os meus estudos até aquela época.

Acho que minha mãe nunca a perdoou por morrer e nos deixar sem aquela ajuda.

Agora, estava claro que ela pretendia fazer a mesma coisa com Mila, impressioná-la, ao menos. E seus comentários maldosos já haviam começado, como o quanto Ludmila era esperta por ter se amarrado com um fazendeiro cheio de grana - e mesmo que não tenha dito com todas as letras, ela deixou a entender que eu deveria ser esperta assim.

Como se não fosse possível eu conseguir ter uma vida boa por meu próprio mérito.

Acabei me sentindo um bocado mal por pensar assim porque o quanto demoraria até eu virar a minha mãe e começar a implicar com Mila por ela estar com um namorado rico enquanto eu me esforço para conseguir o meu próprio dinheiro?

Balancei a cabeça e encarei a entrada do shopping. O que diabos eu poderia comprar para Mila?

Eu me lembrava da época que era só comprar qualquer ursinho de pelúcia e ela o arrastaria para todos os cantos e o faria seu melhor amigo por semanas. Agora, porém, faziam anos que eu sequer a via e nossa amizade virtual não era de uma grande constância, embora nos falássemos com uma freqüência impecável. Não tinha certeza se sabia muito bem do que ela gostava.

Talles, seu namorado, lhe deu um cavalo no ano anterior e, naquele ano, ele lhe presenteara com uma viagem para a Europa (Europa!!!), que eles fariam no meio do ano, quando ambos já teriam completado a faculdade.

Como se competia com algo assim? Eu não fazia ideia nem por onde começar a procurar. Meus cem reais não compravam nem crina de cavalo e eu não fazia ideia do que ela poderia gostar.

Gastei cinco reais em uma salada de frutas, enquanto eu pensava com os meus botões sobre o que eu poderia fazer. Provavelmente foi uma bobagem, mas eu estava com fome e achei que eu poderia me sair melhor depois de comer alguma coisa.

Enquanto comia, conclui que Mila iria gostar de qualquer coisa que eu lhe desse, mesmo que fosse um papel de bala, porque ela não era louca como a minha mãe. Com esse pensamento em mente e mais relaxada, andei pelo shopping sem rumo algum, olhando as vitrines sem interesse, não encontrando nada que me saltasse os olhos ou me parecesse muito interessante.

Até que, no caminho para a praça de alimentação, encontrei um quiosque com o que eu precisava. Era uma lojinha com presentes divertidos e perdi uns vinte minutos, rodeando a barraquinha e checando os presentes um por um, rindo tolamente das frases estampadas em alguns deles, porque eram, de todo, bastante engraçadas.

Acabei gastando trinta reais em uma caneca com os dizeres "Para uso exclusivo de uma diva", com um diamante rosa ao lado. Achei divertido e interessante e tinha certeza que, embora fosse simbólico e simples, Mila iria adorar.

Gastei mais quarenta reais em um brinco que eu achei bonitinho, na loja atrás do quiosque. Perdi mais uns quinze minutos antes de escolher um ideal, mas aquele parecia ter a cara dela. Era um brinco prateado com uma bolinha que parecia uma pérola no meio de um emaralhado de linhas prateadas, como uma gaiola. Era bonito, chique e discreto.

Estava razoavelmente satisfeita, nem tinha perdido tanto tempo assim e eu ainda tinha vinte reais.

Resolvi comprar alguma coisa para comer e me poupar de ter que preparar minha janta em casa. Sentei-me à praça de alimentação e me distraí, olhando no celular, enquanto comia, com as bolsas jogadas na cadeira ao meu lado.

No fundo, tinha sido um bom dia de folga, embora eu não tivesse conseguido descansar no todo. Mesmo tendo perdido a praia com a Cela.

Encarei meu salgado com desânimo. No dia seguinte, eu teria que voltar para a rotina louca do bar, ouvir cantadas baratas e trabalhar feito uma louca.

Sem muita escolha, engoli minha comida e recolhi minhas coisas para ir embora rapidamente. Estava cruzando a praça de alimentação para a saída quando ouvi uma voz grave e forte me chamando.

- Ei! Drica!

Quando me virei, seu sorriso fez meu coração disparar e minhas pernas bambearem como se eu ainda tivesse doze anos. Ai, Deus!

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!