3.2 PRESENTE

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Boa parte da tarde foi gasta com todos os quitutes que vendíamos n'A Caverna. Boa parte deles estava sendo congelada para a semana seguinte, quando o movimento do bar ia chegar às alturas por causa do carnaval. Os bailes aconteciam em dois pontos do Asfalto e a A Caverna ficava mais próximo de um, mas em um ponto quase estratégico entre os dois, fazendo com que a rua ficasse bastante movimentada com as pessoas que não queriam se decidir para onde iriam ou com aquelas que trocavam de um baile para o outro.

A verdade é que, oficialmente, o carnaval começava no sábado. Porém, no Rio de Janeiro, a quarta-feira anterior, já tinha festa. Quinta e sexta eram oficialmente parte do carnaval e ele se estendia até o domingo... Após a quarta-feira de cinzas. Eram quase duas semanas de intensa comemoração. Pra mim, normalmente, significava trabalho até o topo, embora minha mãe sempre me desse uma ou outra permissão para sair e me divertir, normalmente na companhia de Pepê e Cela.

Naquele ano, porém, eu estava totalmente livre. E a presença de Mila me dava carta branca para ir à qualquer porra de lugar e festa que eu quisesse. Eu quase não conseguia me conter de tanta felicidade e, para falar a verdade, não estava nem me importando em ter que trabalhar triplicado na cozinha para deixar tudo pronto para a minha mãe.

O telefone de casa tocou e minha mãe foi para sala para atendê-lo. Aproveitei a pequena pausa para checar meu celular e não havia nada muito interessante. Apenas convites para jogos no Facebook, algumas marcações das fotos do dia anterior, uma notificação de amizade e nenhuma mensagem de Cela ou Mila. Entortei o rosto e resolvi olhar quem tinha me adicionado, apenas para sentir meu coração quase estourar em meu peito.

Ai, caramba! Aceitei sem nem pensar duas vezes e abri seu perfil, logo olhando suas fotos. Eu devia estar com uma expressão meio babaca quando minha mãe retornou para cozinha e ficou parada olhando para minha cara. Levantei o olhar do celular e logo o bloqueei, escondendo-o atrás de mim, envergonhada.

Ela suspirou e eu sabia o que ela queria dizer. Você não tem jeito mesmo, tem?

- Filha, troca de roupa e vai lá abrir o bar pra receber as bebidas enquanto eu termino aqui? - perguntou. - Eu avisei a eles que você vai lá, então eles vão vir aqui só pr'eu assinar a entrega. Disseram que chegam em uma meia hora.

Concordei com a cabeça e apesar da minha vontade irredutível de voltar a checar as fotos do JP, tudo o que eu fiz foi correr para dentro do chuveiro e tomar um banho rápido, lavando meu cabelo. Quando saí do banho e me vesti, minha mãe já estava berrando que eu estava atrasada.

Corri até a esquina da ruela em que morávamos, encontrando três dos caras que respondiam ao Pepê, armados até os dentes, e o caminhão de bebidas parado em frente ao bar.

- E aí, Dri - um deles me cumprimentou.

Eu sorri amarelo porque já tinha ficado com ele uma vez, mas apesar de eu sempre escorregar para longe, ele continuava insistindo em ter uma segunda. Fui mais longe com ele do que normalmente aceito com qualquer um e senti-me um pouco envergonhada ao responder minha pergunta mental "Por que ele não larga do meu é, ein?".

Balancei a cabeça em sua direção, tentando não demonstrar que estava nervosa e envergonhada com a abordagem exasperada dele.

- Boa tarde, rapazes - cumprimentei-os, desviando meu olhar das armas, tentando não ficar ansiosa demais, e me concentrei nos moços do caminhão. - Desculpem o atraso. Vou abrir pra vocês.

Quando me abaixei para abrir a trinca da porta de correr, eu ouvi um suspiro e eu sabia que estavam todos os seis olhando para a minha bunda. Revirei os olhos, mas sem conter o sorriso. Apesar de ser normalmente incomodo, principalmente as abordagens nojentas que eu recebia no bar, eu não me importava com olhares e suspiros, contanto que mantivessem suas mãos longe de mim. Na verdade, eu até gostava.

Apontei o local onde eles deveriam deixar os engradados, um depósito que nós mantínhamos no fundo do bar, ao lado da cozinha, e sentei-me à uma das mesas, voltando a checar as fotos de JP, enquanto eles carregavam para dentro. Dois dos rapazes de Pepê, incluindo o que eu já tinha ficado, se dispuseram das armas, colocando-as na mesa à minha frente, e resolveram ajudar o descarregamento, ao que eu era grata. Iria demorar menos assim.

Minha mãe tinha pedido muita, muita bebida, e ainda estava com medo de não durar o suficiente, mas não pudéramos pedir mais porque o dinheiro tinha acabado. Eles estavam avisados que talvez precisássemos de mais durante o carnaval, então me cumprimentaram com um "até semana que vem", quando saíram.

Um deles me acompanhou até em casa, para pegar a assinatura da minha mãe.

- Quando é que você vai poder começar a assinar pra gente, ein? - ele brincou.

- Só em julho! - eu ri.

Até lá, espero não estar mais aqui. Pensei.

- Vai me convidar pra festa? - perguntou, brincando.

- Vai trazer bebidas grátis? - rimos.

Nessa altura, eu já havia tocado a campainha de casa e minha mãe abriu o portão para nos encontrar às brincadeiras e risos. Pareceu gostar do que viu e mantinha um sorriso leve quando assinou o papel na prancheta e nos despedimos do rapaz do caminhão.

Avancei para entrar em casa, mas ela fechou o caminho, com uma expressão arteira. Para minha surpresa, me ofereceu cem reais, ao que eu peguei, assombrada. Não era possível que ela estivesse me dando cem reais para ficar sentada na mesa do bar enquanto os rapazes descarregavam birita. Não fazia sentido.

- Pensei em você aproveitar a noite livre e ir ao shopping comprar um presente pra sua prima... - ela disse.

Ah, não.

Eu gostava de ir ao shopping e eu certamente não me importava em sair e comprar um presente para Mila, mas tudo o que eu queria fazer agora era abrir o meu notebook e fuçar o perfil todo de JP e checar se ele tinha uma namorada, além de dar uma olhada melhor em suas fotos.

- Não posso fazer isso na semana que vem? - choraminguei. - Aí eu posso ver se a Cela pode ir comigo. Ela tá na praia hoje e não acho que já tenha voltado.

Minha mãe tomou uma lufada de ar e colocou o dinheiro em minhas mãos.

- Semana que vem vai ser mais corrido ainda, princesa - murmurou. - Você sabe como é que é. É hoje ou nenhum presente e sua prima fez aniversário no mês passado. Vai ser educado se tivermos um presente pra ela.

Entortei o lábio e concordei com a cabeça. Ir ao shopping sozinha era definitivamente um saco.

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