3.1 ROTINA

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CAPÍTULO TRÊS - FOLGA PRA QUÊ?

Eu acordei com meu telefone tocando, alto e claro, e acabei praguejando alguns palavrões sem nem notar. Aquele era o único dia que eu podia dormir até a hora que eu quisesse e depois de passar a tarde toda no churrasco do Pepê e trabalhar a noite no bar, eu poderia tirar um bom descanso.

Segunda-feira, o bar não abria. Na verdade, noventa por cento dos comércios da favela não abriam na segunda, seja por ressaca ou porque todo mundo precisava de uma folga, a segunda era sagrada para todos nós. Porém, não significava que não tinha trabalho para fazer, apenas dizia que eu não precisaria ir dormir às quatro da manhã depois de expulsar um bêbado louco.

Eu podia ouvir minha mãe na cozinha, fazendo comida e preparando os salgados e bolos que nós vendíamos e eu agradecia aos céus por ela permitir que eu descansasse um pouco a mais, sempre que dava. Sabia que, apesar das cobranças e dos receios dela me deixar ir e cursar minha faculdade, não gostava que eu me sacrificasse tanto para ajudá-la a manter a casa. E, por isso, eu agradecia.

Estapeei o meu lado da cama até encontrar o objeto infernal que me acordara. Olhei a tela do celular com meus olhos apertados de sono e um bocado no meu cabelo encaracolado tampando-me a visão. Porém, consegui identificar que já passava de meio-dia e que aquela era uma ligação da Cela.

"Bom diaaaa!" ouvi sua voz animada, assim que arranhei um "alô", atendendo a ligação.

- Você sabe que está correndo risco de vida nesse exato momento, não sabe? - questionei, de mau humor.

Escutei a risada de Cela do outro lado, meio fanha, indicando que também não tinha muito tempo que ela se levantara também. O motivo dela, porém, era outro. Eu tinha certeza que o churrasco tinha ido noite a dentro.

"Não seja tão má, Drica" ela se riu. "Pepê e eu estamos indo para a prainha, queria saber se você quer ir com a gente!"

Olhei para o meu armário, onde meu biquíni estava pendurado na porta, implorando para ser usado naquele verão, quando eu ainda não tivera a oportunidade. Eu queria muito ir, mas, bem naquele momento, ouvi um barulho elevado de talheres se batendo e minha mãe xingou um palavrão da cozinha.

E eu não pude ser tão egoísta.

- Não dá, Cela - murmurei, chateada. - Tenho que ajudar minha mãe na cozinha. Estamos congelando os salgados pro carnaval, você sabe.

"Ah, tudo bem" parecia decepcionada, mas eu também estava. "Fica pra uma próxima, então?"

- Claro - sussurrei.

Nos despedimos e desligamos. Visualizei a tela do meu celular, apenas para encontrar uma mensagem de Mila. Estivemos conversando durante o dia anterior, falando sobre a sua viagem e os preparativos. Eu ganharia folga por todo o carnaval e na semana seguinte para poder receber a ela e ao namorado e cuidar de toda a viagem deles. Minha mãe contratara duas temporárias para ajudá-la naquele dia, certa que, mesmo com as duas, não conseguiriam fazer todo o trabalho que eu, sozinha, fazia. Mas nosso dinheiro não daria para uma terceira, de qualquer forma.

"Estou tão animada!" era a mensagem de Mila, que eu ainda não tinha visto. Tinha mandado cedo, pela manhã. O que ela fazia acordada às cinco da manhã, nas férias?

Faltava ainda duas semanas quase inteiras para ela aterrissar no Rio, mas nós não falávamos de mais nada. Eu não via Mila desde o longo período que ela passara conosco quando minha tia morreu. Suspeito que fora por ali que ela tivera o primeiro contato com maconha, que viera a ser um dos problemas que ela tivera alguns anos depois, e apertei minha memória, me recordando que ela andava com o JP pela favela, as vezes. A diferença de idade deles era menor e, na época, ela estava mais interessada em festas com ele do que brincar de Barbie comigo.

Franzi a testa para o meu celular, com aquela nova revelação. Deveria perguntar? Achava que não. Mila parecia bem feliz com o namorado caipira dela e seja lá o que fosse, não me interessava. Preferia não saber.

"Eu tmbm! Vou te levar em tds os blocos da orla, vc vai ver só!"

Levantei e fui encarar-me no espelho, ver minha situação precária depois de conseguir dormir uma noite agradável de quase nove horas de sono. Desamarrei meus cabelos e eles se encheram ao redor do meu rosto, em um estado menos calamitoso do que eu esperava. Passei os dedos entre eles, ouvindo meu celular apitar com mais uma mensagem, tentando soltar alguns dos nós, prometendo a mim mesma lavá-los naquele dia, antes que ele se embolasse o suficiente para eu não conseguir fazer mais nada. Por enquanto, porém, uma boa dose de creme para pentear iria resolver.

Satisfeita, caminhei até a cama e peguei o celular para ver a mensagem de Mila que chegara enquanto eu me encarava no espelho. Saí do meu quarto, indo para o banheiro, enquanto eu a lia.

"Quero ir naquele dos Beatles que tem!!!!" Ri pela quantidade de exclamações, que me informava o quão ela realmente queria ir ao Sargento Pimenta.

Respondi-lhe com a escova de dentes na boca.

"Sim, vms sim. Vms em tds q vc qser!"

Encaixei o celular no bolso do short do meu pijama e desci a escada em espiral para encontrar minha mãe com o indicar esquerdo envolto por um papel toalha meio avermelhado. Ao ver a calabresa em cima da mesa e uma faca abandonada na pia, não demorei a entender. Não era tão incomum para quem trabalhava com cozinha.

- Desculpa, mãe - murmurei. - Dormi demais.

Ela sorriu, afável.

- Tudo bem, querida. Você merece.

- Vou almoçar e já venho ajudar a senhora - prometi. Peguei meu prato e comecei a me servir da comida que estava em cima do fogão. Nada muito elaborado: arroz branco, feijão preto e peixe frito. Ao passar por ela para ir até a sala, senti sua mão em meu bolso.

- Mas nada de celular no almoço - disse.

Fiz cara feia e me resignei, batendo meus pés com mais força que o necessário, enquanto caminhava até a sala.

Sentei, liguei a TV e comi minha comida em garfadas irritadas, quase sem sentir o gosto do que estava mastigando. Minha mãe apareceu dois minutos depois e colocou um copo de suco de laranja na cômoda ao meu lado, antes de retornar para a cozinha e para o trabalho. Respirei fundo e me acalmei. Minha mãe tinha seus rompantes zangados que me tirava do sério, mas apesar de tudo e apesar da falta de fé em me deixar fazer minha faculdade, ela me amava. Muito.

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