2.3 UMA VEZ SÓ

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- Você sabe... Elas tem pernas, mas não costumam ir muito longe - brincou.

Eu ri baixinho, tentando não dar mais pinta do que já estava dando, mas achava que aquele sorrisinho irritante que ele ostentava em seu rosto já era o suficiente para me indicar que ele sabia o que eu estava pensando. Resolvi mudar de assunto, antes que ele me encurralasse e eu não soubesse o que dizer.

- Não me lembro da sua namorada - murmurei. - Mudou tem pouco tempo?

Ele estalou os lábios e pareceu bastante decepcionado por eu mudar o tom da conversa em direção à ele. Soltou mais um suspiro cansado e roubou um pedaço de lingüiça de meu prato - não sem antes eu lhe dar uma garfada nas costas de sua mão, deixando quatro marquinhas de buraco, que logo desapareceram.

- Cela não é daqui. - murmurou. - É... Complicado.

Tomei um gole da minha cerveja e fiquei encarando-o, esperando pela história e demonstrando que eu queria mesmo ouvir aquilo.

- Cela e Drica estudavam juntas. Drica nos apresentou e a gente começou a sair... - deu de ombros. - A gente sempre quis ficar juntos, juntos mesmo, mas os pais dela... Mano, era um saco. Eles controlavam ela demais e começaram a tentar impedir Cela e Drica de se verem, porque Drica sempre dava um jeito da gente se encontrar. Ano passado, Cela só ia pra escola e da escola pra casa. O pai dela levava ela todo dia pra lá e pegava, não deixando nenhuma brecha pra gente e, então, quando ela fez dezoito, se mudou para cá. Eles tentaram reavê-la, deram queixa de sequestro, foi uma merda muito feia, ela teve que depor na polícia e dizer que não tinha sido raptada e que tinha saído de casa por vontade própria. E como ela já era de maior...

Tentei fingir que meus olhos não estavam arregalados com a surpresa de todo aquele drama na história deles e eu não ter tomado conhecimento em nenhum momento. Tudo bem, eu não era muito presente mesmo, mas minha mãe não havia mencionado nenhuma vírgula em nossas conversas telefônicas.

- Então ela veio morar com você? - perguntei.

- Com a Drica, a princípio. - ele respondeu. - Ficamos com medo da polícia vir checar e nos encontrar juntos e acabar dando merda pra mim, mas quando a casa começou a tomar jeito, ela se mudou pra cá comigo. Não é como o apartamento dela, na Barra da Tijuca, mas não tenho visto ela reclamar - riu.

Tossi, engasgado com a minha comida. Barra da Tijuca era um bairro nobre emergente do Rio de Janeiro e eu simplesmente não conseguia acreditar que ela trocara a casa dos pais em um local desses por uma casa em construção, no meio da favela.

- Na Barra, é? - perguntei, apenas querendo saber se eu tinha escutado direito.

- É - ele deu um dos seus sorrisinhos sarcásticos e convencidos. - Me ama muito, essa daí.

Eu ri e roubei seu latão de cerveja para encher meu copo. Esperava que ele reclamasse ou batesse em minha mão, como eu havia acabado de fazer com ele ao roubar minha comida, mas Pepê tomou uma postura séria e uma expressão compenetrada.

Não conhecia muito desse lado do meu irmão, mas conseguia ver que era assim que ele estava subindo no tráfico.

- João... - ele chamou-me, sério. Abaixei o copo de cerveja e respirei fundo, sabendo o que vinha a seguir. - Sei que você tá com problemas de dinheiro e tal. Eu estou apertado agora por causa da obra, mas tenho certeza que consigo alguma coisa pra você, você sabe. Eles não vão te dar nada muito por baixo por respeito ao pai. Você pode acabar ficando com alguma boca aqui do Alto... Eu não sei. A gente te arruma algo maneiro, cara.

Entortei o lábio para ele. Eu não queria rechaçá-lo totalmente porque eu sabia que ele estava com todas as boas intenções do mundo, mas eu estava me sentindo orgulhoso demais. Eu não tinha estudado na melhor faculdade do país para jogar meu diploma fora e entrar no tráfico. Não.

- Pepê. Não. - não consegui formular uma resposta melhor ou qualquer outra desculpa que não parecesse arrogante.

Meu irmão não tinha completado nem o ensino médio, eu não poderia dizer para ele que não entraria para o crime porque tinha ensino superior completo. Ele iria se ofender e pronto.

- Não descarte assim tão rápido - ele me disse, com um sorriso leve. - Ao menos tente pensar no assunto um pouco. Sei lá.

Para o bem da nossa relação, concordei com a cabeça. Mas eu preferia trabalhar como estoquista ou faxineiro e até mesmo no McDonalds. Mas não descartei.

É como os pobres fazem dinheiro alto e rápido. Você vai poder dar os presentes que quer para a sua mãe e compensar os anos fora. Disse a maldita voz na minha cabeça.

- A gente pode só mudar de assunto? - ri.

Pepê deu de ombros e correu o olhar ao redor, parecendo um gavião, cuidando da ordem do seu quintal e vendo se estava tudo certo, sem brigas, com música e fartura de comida ou bebida. O olhar dele parou em um canto e eu segui-o, sem disfarçar, identificando Drica e Cela, na porta da casa dos dois, tirando fotos com um celular, fazendo poses e biquinhos. Rimos ambos e minha risada fez Pepê perceber que eu estava acompanhando a mesma cena que ele.

- Bom, então que tal falarmos de uma certa morena que você não consegue nem disfarçar que não tira o olho? - perguntou-me, rindo.

Revirei os olhos, mas não adiantava fingir que não. Eu estava encantado e admirado demais para me importar em tentar disfarçar. Acho que, se era claro para ele, para ela já devia estar descarado, mas eu não conseguira nada além de respostas atravessadas até o momento.

- Certo - concordei. - Me diga como é que a gente faz com essa daí.

Ele gargalhou com a minha descaração e pegou seu latão de volta, tomando cerveja dele mesmo, sem se importar.

- Ah, não é tão difícil - riu. - Drica não é muito seletiva, na verdade. Ela topa com qualquer um que cante ela com palavras bonitas - deu de ombros. - Só que ela não costuma ficar mais de uma vez com ninguém. É bem difícil.

Eu estava incomodado e altamente interessado.

- Sério? - perguntei. Meu olhar voltou às duas garotas, um pouco distantes de nós, ainda tirando fotos e rindo com vontade.

- É. Metade dos meus caras já ficou com ela, pelo menos - deu de ombros novamente. - Dizem que ela beija bem e é muito gostosa, então aproveite bem, quando conseguir, porque é possível que seja uma vez só.

Concordei com a cabeça, nervoso e me deixei afundar em pensamentos confusos sobre bocas de fumo e morenas deliciosas.

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