2.2 CHURRASCO

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- Mãe, não chega de comida? - perguntei, pela centésima vez.

Eu achava que minha mãe estava preparando todos os pratos para o churrasco que Pepê estava fazendo para comemorar minha chegada ao Rio. Eu não tinha nem noção de quantas pessoas iriam, mas pela quantidade de comida... Eram muitas travessas e panelas. Estávamos alimentando um exército? Fechei os olhos e conclui que era possível que estivéssemos.

- Não é todo dia que eu tenho o meu filhinho lindo em casa, então... - ela sorriu e continuou mexendo na panela de doce que estava fazendo. - Nós sentimos sua falta. Deixa a gente comemorar.

- Mãe... - odiava ouvi-la falar assim porque eu me sentia culpado por ter ido embora e não ter voltado quando o pai foi preso e depois morto na cadeia. Eu atendia suas ligações e ouvia seus lamentos, mas dentre meus amigos e conhecidos de São Paulo, ninguém sabia o que havia acontecido. - Eu...

Ela balançou a mão no ar, cortando minha tentativa de pedir desculpas. Abaixou o fogo e me puxou para seus braços, me abraçando. Curvei-me e encostei minha bochecha em seu ombro, sentindo seus cabelos cheios roçarem em meu rosto.

- Não importa, meu lindo - suspirou. - Você voltou. E com um diploma!

Ri gostosamente enquanto ela voltava para sua panela para terminar de mexer o doce. Minha mãe andava esfregando meu diploma na cara das vizinhas e amigas; eu era o primeiro da minha família a cursar faculdade e era nisso que o seu orgulho montava.

Sentei-me à mesa da cozinha e olhei ao meu redor. Eu me lembrava da nossa modesta casa na minha infância e, então, as reformas que meu pai fizera conforme crescera no tráfico. Agora, quase cinco anos depois que eu me debandei dali, parecia ainda mais arrumada. Se não fosse a localidade, o espaço limitado e a pobreza que era possível ver pela janela, eu diria que era digna das casas de novelas.

Quem dera isso a ela? Não fora eu e o meu diploma. Meu pai e meu irmão, com o dinheiro sujo do tráfico, que lhes compraram as coisas bonitas e a sustentaram através dos anos e dos problemas.

Enquanto minha mãe terminava seus últimos quitutes, tomei um banho. Voltei e ela me deixou tomando conta do forno, enquanto ela mesma se arrumava. Não demorou muito, porém, longe do seu lugar favorito. Voltou perfumada e a tempo de tirar o frango do forno.

Pepê entrou em casa enquanto eu embalava a travessa do frango com papel alumínio.

- Bença, mãe - deixou um beijo no rosto dela e me deu um soquinho no ombro. - Cadê as fartura?

Mamãe apontou para a pia, o fogão, a geladeira e para a mesa da cozinha, todos ocupados com panelas, travessas e formas, fazendo com que Pepê soltasse uma gargalhada gostosa.

- Vam'bora colocar tudo isso no carro! - comemorou, alegre.

Carregamos as coisas para o carro de Pepê que, por mais que tivesse andado o suficiente nele nos dias anteriores, eu não conseguia segurar meu queixo, impressionado demais. Era um Porshe Cayenne 4x4 prata que eu duvidava que tivesse saído por menos de cem mil reais. Era uma quantia tão absurda de dinheiro... Se eu tivesse metade daquilo, eu teria minha vida na linha; poderia investir em algum negócio próprio, conseguir um apartamento alugado em alguma área razoavelmente como Recreio ou Vila Isabel.

Quando saí do meu transe, estávamos já estacionando na casa que Pepê dividia com a sua namorada, Cela, que eu finalmente conheceria, depois de ouvir tanto falarem dela desde que eu chegara.

A casa de Pepê era um absurdo de grande. Ao contrário da casa da nossa mãe, que ficava no Asfalto, a dele ficava no Alto, na parte mais alta do morro, onde haviam mais terrenos baldios. A casa, em si, estava ainda em construção. Dava pra ver os materiais em um canto do quintal grande, visto que boa parte da area estava tomada por mesinhas e pessoas já comendo e bebendo.

Identifiquei a namorada de Pepê antes que nos aproximássemos e ela se apresentasse. Estava rondando a mesa com as cervejas como se estivesse controlando a quantidade de álcool que seus convidados pudessem tomar, o que causou fez com que eu risse.

- Deixa isso aí, Cela - Pepê a puxou pela cintura e deu-lhe um beijo casto na boca. - Tem cerveja o suficiente para esses bêbados se embebedarem.

- Eu sei - murmurou. - Mas...

- Mas, nada, Marcela. Diversão! - Pepê a cutucou na cintura e ela se desmanchou, rindo. - Meu irmão está de volta, então vamos deixar a galera beber e se divertir.

Cela sorriu para mim e mexeu os ombros como se dissesse "Você sabe como ele é" e eu sorri porque eu sabia. Teria evitado aquele churrasco, se eu pudesse. Mas estava programado e com todas as carnes e bebidas compradas já quando eu desembarquei.

Assim que as pessoas perceberam que eu estava ali, começaram a vir falar comigo. Confesso que tinha dificuldade de me lembrar da maioria delas, mas alguns eram meus parceiros de confusão da adolescência, já com família e filhos, além de um bocado de primos e tios e aparentados que eu não fazia ideia de onde haviam surgido.

Parei de perguntar por amigos que eu não via no churrasco porque todas as respostas eram algo como "Levou chumbo há um tempo atrás". Decidi que eu não queria saber.

Quando finalmente sentei à uma mesa para comer, insistência de minha mãe e debaixo das implicâncias de Pepê, percebi a morena passeando pelo churrasco com Cela em seu encalço. Deixei meus olhos vaguearem pelo seu rebolado e seu corpo bem moldado, tentando me lembrar mais claramente dela, mas quanto mais eu me esforçava, mas a menininha assustada e envergonhada que eu conheci parecia desaparecer de minhas lembranças.

Essa menina-mulher parecia o exato oposto da pré-adolescente que fora, confiante, abusada e sensual. A comida acabou ficando um pouco esquecida enquanto eu as acompanhava com o olhar, antes que Cela e Drica sumissem para dentro da casa grande, ainda nos tijolos.

Voltei a garfar meu prato e ouvi meu irmão soltar um suspiro e se jogar ao meu lado, lançando-me um olhar acusatório.

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