2.1 MULHERÃO

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CAPÍTULO DOIS - CHURRASCO DE DOMINGO

Meu irmão se aproximou da mesa como se fosse dono de todo o pedaço - e ele era, basicamente. Lembrava-me com mais clareza das proezas do meu pai do que ele, e de como ele governara toda a favela com seu punho de aço e suas regras, nem sempre muito corretas. Pepê estava indo para o mesmo caminho e eu não duvidava que ele chegasse ao topo em um ano ou dois. Meu irmão mais novo, meu caçula, atolado até o pescoço nas mesmas merdas que me fizeram fugir para longe dali.

Ele lançou um olhar zangado para os três rapazes que me acompanharam até o bar e eles pareceram saber que tinham feito algo errado, porque se recolheram e se despediram, levando suas latinhas junto com eles.

- Então... - riu. - Já se acostumou de volta?

Dei de ombros, virando a latinha toda no copo antes de responder, pensando e me distraindo. O que eu deveria dizer? Que era repugnante ver que meu irmãozinho acabou escolhendo aquele caminho ou o fato de que eu estava tendendo a ir exatamente atrás dele porque nenhuma empresa queria me contratar, já que eu era filho de chefe do tráfico?

Quem era eu para sonhar com algo melhor que aquilo, hein?

- Eu só cheguei há um dia. Me dá um tempo.

Ele riu como se estivesse esperando exatamente essa resposta, mas perguntara de qualquer jeito. Dei de ombros para o seu comportamento tão diferente do que era quando eu me fora para São Paulo e ele só era um menino espinhento entrando na puberdade. Agora era um homem que chefiava caras mais velhos que ele.

Tomei mais uma golada de cerveja, vendo a morena passar pelo bar com o celular na orelha. Pepê acenou com a cabeça para ela e ela balançou uma das mãos para ele, cumprimentando-o. Franzi a testa para ele, sabendo que ele estava praticamente casado com uma loira - não que eu fosse incriminá-lo por cair nas graças daquela garota, mas eu iria querer saber qual era o caso.

- Quem é a morena? - perguntei, tentando não parecer curioso demais.

Minha tentativa foi falha, ele levantou arrastou o olhar da TV de volta para mim e levantou uma sobrancelha, debochado e rindo.

- Ah, você não se lembra dela? - perguntou.

Não disse mais nada, porém. Houve uma movimentação esquisita na frente do bar e ele pediu licença, indo checar, todo responsável. Apenas meio minuto depois, a morena voltou para dentro, agora parecendo bem menos decidida, sem jeito e de olhos arregalados. Sumiu além do balcão por uma porta de correr e não apareceu mais.

Terminei de beber minha cerveja e imaginei que aquela era uma ótima desculpa para tentar descobrir mais sobre a morena. Era suposto que eu a conhecesse, certo? Talvez, se eu desse uma olhada melhor e com a mente preparada para cutucar memórias, eu a reconhecesse de algum lugar. Naquele momento, estava apenas tudo embaçado.

Levantei-me de minha mesa e fui até o balcão, esperando que ela aparecesse de lá de dentro para me atender, mas nada.

- Olá? - chamei.

Provavelmente seria útil se eu soubesse seu nome e já estava pronto para passar por cima da hostilidade que ela demonstrara antes e lhe perguntar quando outra pessoa saiu pela portinha de correr, deixando-me apenas um vislumbre da morena lá dentro da cozinha, parecendo se ocupar de lavar louças.

Antes de deixar o desanimo ser demonstrado em minha face, reconheci a mulher que caminhava em minha direção, com um sorriso. Ela se aproximou do balcão e uma das mãos foi direto à minha bochecha, que ela apertou sem dó, fazendo com que eu me sentisse uma criança de novo, brincando na soleira de sua porta.

- Oi, tia Marta - murmurei com um sorriso.

- Olá, criança - sorriu. - Mas como você está grande agora! Não sabia que estava de volta.

- Foi repentino - disse.

Repentino era eufemismo diante ao problema. O contrato do meu segundo estágio estava acabando quando eu recebi um aviso que não seria efetivado. Saí em busca de outros empregos, apenas para descobrir que era fácil fazer o link dos meus documentos à ficha criminal do meu pai. E, aparentemente, nenhum veículo de comunicação parecia querer contratar um jornalista envolvido diretamente com o tráfico.

Preferi voltar para a casa da minha mãe com o pouco de dinheiro que me restava, a gastá-lo com aluguel e com o custo de vida alto do centro de São Paulo. Agora era tentar algo por aqui e rápido. Quanto mais cedo eu saísse da favela novamente, melhor para mim.

Aí eu poderia fechar os olhos e fingir que meu irmão não estava indo para o mesmo caminho do meu pai, que minha mãe era uma dona de casa comum que não precisava esconder as fotos de família porque nunca se sabia quando a polícia iria entrar nas casas para verificar, que eu, pobre, negro e favelado, poderia, sim, ter uma carreira limpa e de sucesso, longe daquele lugar.

- É bom ver você de novo, criança, sua mãe deve estar felicíssima - riu.

Eu ri porque era mais que verdade. Minha mãe parecia que iria explodir de felicidade e tinha passado o dia quase todo na cozinha, fazendo todas as minhas comidas favoritas.

- Sim, ela está sim - respondi, ainda rindo. - Eu queria uma cerveja, tia.

Ela se preparou para ralhar comigo; vi sua expressão endurecer, antes de suavizar. Provavelmente se esquecera que eu não era mais um moleque, correndo pela favela com minha motoca, azarando as garotas e roubando maconha escondido do meu pai.

Pegou uma cerveja e colocou sobre o balcão com um sorriso, ao que eu lhe dei o pagamento. Nesse momento, a morena saiu da cozinha, secando as mãos com um pano de prato. Ajeitou o cabelo e levantou o olhar em minha direção, congelando e parecendo levemente envergonhada.

Céus. Eu podia ver, agora.

- Você lembra da Adriana? - tia Marta me perguntou.

Concordei com a cabeça, um sorriso leve no rosto. Eu me lembrava dela, obviamente não assim.

- Sim. Já nos falamos hoje, não a reconheci - eu ri. - Ela era uma criança quando eu fui embora, não... - o pensamento que me acometeu fora não esse mulherão, mas decidi que não eram palavras educadas para se dizer na frente na mãe dela. - Oi, Drica.

Ela balançou com a cabeça em minha direção, respondendo o meu cumprimento com aquele simples gesto. O assunto pareceu morrer ali e eu fiquei congelado, com a minha latinha na mão, sem saber o que dizer.

- Mãe, posso ir na Cela?

Ao que tia Marta respondeu não, as duas entraram na cozinha tendo uma leve discussão sobre os motivos de Drica não poder ir ao Alto às onze horas da noite e eu voltei para a minha mesa, pensando com os meus botões, ligeiramente incomodado ao notar que eu estava com um tesão danado pela coleguinha de escola do meu irmão mais novo.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!