1.3 A CONVERSA

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Ele se foi e eu fiquei ardendo em brasa. Por estupidez nervosa, eu sabia, mas a verdade era que ele fora a gota que respingou para fora do copo cheio de merdas com as quais eu não conseguia lidar.

Era o medo da faculdade, a minha mãe com medo do meu futuro, o trabalho no bar, os bêbados nojentos e um cara que parecia interessante, me olhando como um pedaço de carne qualquer.

Afundei-me em meus problemas e encostei a testa no vidro do balcão, o fresco aliviando um pouco do calor causticante do Rio de Janeiro. A música que tocava na festa do BBB, que passava na TV, pareceu mais alta, agora que eu tentava não me concentrar nas conversas das mesas ao meu redor, principalmente na mesa que o senhor olhada indiscreta havia ocupado com os amigos.

Minha mãe saiu da cozinha com uma mecha de cabelos para fora da touca de cozinha e uma porção de batatas fritas que parecia bastante apetitosa. Ela entregou em minhas mãos e passou o olhar pelo bar, não se demorando para identificar a mesa dos amigos armados. Ela estalou os lábios em desagrado, mas continuou encarando.

- Filha, é o João ali? Irmão do Paulo? - perguntou.

João? João Pedro? Céus.

Coloquei a bandeja com as batatas em cima do balcão antes que minhas mãos acabassem se queimando de alguma forma - já que eu tinha um dom mágico para isso - e voltei a encará-lo.

Era.

Eu achei que o reconhecia de algum lugar, mas fazia uns cinco ou seis anos que eu não o via, desde quando ele saíra dali para fazer faculdade em São Paulo. Na época, eu tinha uns doze ou treze e era completamente apaixonada pelo irmão do meu melhor amigo. Ele.

Aqueles malditos olhos e aquele sorriso perfeito… O infeliz ainda mexia comigo, embora eu nem soubesse que era ele antes. E agora, sabendo, meu coração estava disparando em meu peito e minha boca ficou seca quase que imediatamente.

Minha mãe olhou bem para a minha cara, enquanto eu encarava o JP sem nem piscar, na esperança que algum traço me dissesse que não era ele, mas não havia nada. Ela riu e me deu um afago em minhas costas, antes de voltar para a cozinha, cantarolando a música que tocava na TV.

Voltei a me esconder entre a organização das bebidas no balcão, antes de me recordar que eu tinha uma porção de batatas para entregar na mesa dos velhos bêbados. Tomei uma longa lufada de ar e caminhei em passos largos e decididos até eles, depositando a bandeja no meio da mesa e me virando antes de ouvir alguma cantada ou piadinha, apenas para notar os olhos de João Pedro em mim e engolir a seco.

- Drica? - Ouvi uma voz conhecida me chamar e me virei de volta para a frente do bar com um sorriso.

Pepê entrou no bar e me deu um beijo carinhoso na bochecha como se não me visse à eras, o que era, obviamente, uma piada, visto que nos víramos e conversáramos há uns dois dias atrás, quando eu fora visitar ele e Cela, no Alto.

Pepê, abreviação de Paulo Pedro, era um grande amigo meu, irmão de João Pedro e também era o namorido da Marcela, minha melhor amiga. Ele era apenas um ano mais velho que eu, estava no tráfico há uns três e já geria todas as três bocas de fumo do Asfalto, além da barraca de pó que ficava em frente ao mercado. Uma carreira de sucesso, ele dizia. Eu achava graça, mas não havia muito a ser dito. O pai dele fora chefe de toda a favela, fora quem nos ajudara com o meu padrasto, antes de ser preso e misteriosamente assassinado na cadeia. E com o irmão fora de casa, ele não tivera muita escolha sobre o que fazer.

Tinha algo sobre Pepê que era louvável. Ele sabia como eu me sentia sobre as armas e durante todo o tempo que ele estivera no tráfico, eu nunca o vira com uma. Eu tinha certeza que ele as escondia quando me via virando a esquina ou qualquer coisa do gênero, mas eu achava doce. Doce da maneira dele, claro.

- Cela pediu pra você tentar ir dormir lá em casa hoje - disse, me segurando pelos braços como se eu fosse fugir a qualquer momento. - A gente vai fazer um churrasco amanhã e eu tenho certeza que ela só quer é a sua ajuda para preparar as carnes, então fuja.

Gargalhei, chamando a atenção da mesa dos bêbados e de JP também, que franziu a testa ao me ver com seu irmão. Ignorei-o, cutucando Pepê com meu indicador, ameaçando lhe fazer cócegas, ao que ele escorregou, dando um passo para longe de mim com uma expressão ofendida.

- Diga a ela que se ela me livrar da minha mãe por pelo menos uma noite, eu a ajudo com todo o prazer do mundo.

Ele riu gostosa mente e concordou com a cabeça. Deu-me um outro beijo na bochecha e escorregou para a mesa do irmão ao ver que eu tinha clientela me esperando, dando olhadas ameaçadoras aos três rapazes armados, que saíram de fininho dali. Voltei ao meu balcão e atendi quem me esperava, distraída e com o humor um pouco melhor do que quando começara a noite, sentindo minhas bochechas queimando em brasa fervente e meu coração batendo acelerado.

Achei que eu provavelmente teria que me acostumar com a sensação, enquanto JP estivesse por ali. Peguei meu celular, que estava jogado dentro da gaveta do caixa e digitei uma mensagem para Cela.

“Encontrei c o irmão do PP hj! Vc sabe qnto tempo ele vai fkr p aki?”

A resposta foi rápida: “Pq?”

Grunhi para o celular e olhei ao redor, apenas para checar se minha mãe não estava vindo para ralhar comigo por estar ao telefone em horário de serviço. Digitei rapidamente: “Me responde kct”

“Ele veio p fkr. Tá na ksa da minha sogrinha”

Oh, droga. Encarei o celular por um longo momento, sentindo meu estômago em festa, como se ele gostasse muito da notícia.

“Cela, eu axo q preciso d ajuda”

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