CAPÍTULO TRÊS

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  O livro, publicado pela Astral Cultural, pode ser encontrado nas melhores livrarias (físicas e virtuais) do país. Garanta seu exemplar de Poder Extra G que em 2017, vem aí o segundo livro da trilogia: SINGULAR <3  

Era sábado e como dono da livraria, Nico havia se dado uma folga. Para passar o dia inteiro comigo, vale ressaltar. Eu não estava irremediavelmente apaixonada nem nada do tipo, mas estar com Nico era bom... Era natural e saudável, sabe? Não era um envolvimento tóxico. Quando comecei a namorar com o Marco, achei que estava fazendo um bem danado para a minha autoestima, afinal, não é todo dia que uma mulher gorda fisga um cara sarado e popular, não é? Mas eu estava enganada. Redondamente enganada (e quando digo redonda, não estou me referindo a minha circunferência, ok?). Marco foi bom para o meu ego e apenas isso. O tempo todo ele parecia me esconder e eu demorei tempo demais para me dar conta. Ou talvez eu estivesse me enganando.

Enfim. Nico apareceu no meu hotel bem cedinho. Ele havia me instruído a não tomar o café-da-manhã. Dessa vez ele não apareceu de táxi. Ele estava dirigindo um carro bem bonito... Preto, grande, com uma aparência esporte. Não queiram saber nada mais além disso, não entendo nada de carros. Sentei-me no banco do carona e ele me recebeu com um sorriso radiante. Em poucos minutos estávamos em um hotel onde a diária devia ser cinco vezes mais cara que a diária de onde eu estava hospedada. Não me deixei intimidar por toda aquela pompa. Eu estava confiante no meu sobretudo preto, minha legging da mesma cor e botas de cano alto. Em meu cabelo havia uma trança embutida bastante elegante e em meu rosto, uma maquiagem suave. Entramos no elevador e Nico nos levou até o terraço do hotel. Ele pediu para que eu fechasse os olhos e me guiou pelo espaço até pararmos. Quando finalmente os abri, fui tomada por uma visão que me deixou sem fôlego. Buenos Aires era ainda mais linda vista daquela altura. Era como se estivéssemos no topo do mundo.

− Essa é a construção mais alta da cidade − Nico me contou com uma voz levemente rouca de dar arrepios. − E também meu lugar favorito. Sinto-me tão próximo do céu... E quando tenho um problema, gosto de vir até aqui, pois consigo ver tudo sob uma nova perspectiva. Eu olho para baixo e vejo como tudo é pequeno e efêmero diante dessa imensidão.

− Obrigada por dividir esse lugar comigo − agradeci sem desviar o olhar da paisagem. Ela era tão arrebatadora... Fotografia nenhuma faria jus a ela.

− Eu divido lugares especiais com pessoas especiais − ele confessou em um sussurro, e eu não sabia o que me deixava mais embriagada: a paisagem ou Nico.

Comemos medialunas, as melhores da minha vida. Não dispensei o doce de leite... O dali era ainda mais gostoso. Nico não parecia se incomodar com a minha comilança. Eu estava faminta e tudo ali era delicioso demais. Eu não precisava fingir comer pouco apenas para impressioná-lo, sabe? Sejamos sinceros: esse corpinho cheio de curvas não foi conquistado com miséria. Eu gostava de abundância e comia assim sem culpa. E então lá estávamos nós, novamente conversando sobre assuntos pessoais. Era estranho como a conversa fluía sem pudores. Éramos capazes de falar de absolutamente qualquer assunto e quando tínhamos opiniões divergentes, concordávamos em discordar. Em determinado momento, flagrei-o me encarando de um jeito estranho. Mais estranho ainda foi a forma como meu corpo reagiu ao seu olhar. Deus do céu, aquele homem estava me devorando! Ele pagou a conta com o dinheiro do cassino e nós saímos rumo ao interior da cidade. Estávamos a caminho de um lugar incrível, segundo Nico. A julgar pela paisagem que apreciamos durante o café-da-manhã, eu não duvidei nem um pouco.

Estávamos ouvindo o cd de uma banda chamada Bajofondo. Músicos contemporâneos de qualidade, Nico me dissera. Eu gostava do ritmo e apesar de não saber cantar nada, me vi envolvida nas canções. Quando o celular do Nico tocou, ele me estendeu e pediu que eu o atendesse. Fiquei constrangida e quase recusei o pedido, mas isso seria indelicado demais até para mim. Apertei o botãozinho verde na tela e respirei fundo. Tomara que não seja a mãe dele... E não era. Era ainda pior. A ligação era do hospital e Noah, irmão mais novo do Nico, estava internado após uma forte crise de dor abdominal. Noah, no entanto, se recusava a fazer os exames necessários. Como o hospital não havia conseguido contatar a mãe deles, resolvera ligar para Nico. E então, em menos de cinco minutos, ele pegou o primeiro retorno e seguiu de volta para a capital. Nesse tipo de situação eu simplesmente não sabia o que fazer. Nada que eu dissesse poderia acalmá-lo ou confortá-lo, afinal, eu não sabia o que estava acontecendo e qualquer coisa que dissesse seria uma tremenda mentira. Será que eu podia abrir a porta e pular do carro em movimento? Parecia errado eu estar no meio de uma crise familiar. E esse é apenas o nosso terceiro encontro... Será que Nico sabia o que estava prestes a acontecer? Será que ele se dava conta de para onde estava me arrastando?

Sei que vai parecer exagero da minha parte, mas eu estava com ânsia de vômito. Eu não devia estar nessa situação, não parecia certo. E pior, eu nem podia ajudar Nico, muito pelo contrário, a tendência era que eu atrapalhasse ainda mais. Curiosamente, ele parecia discordar de mim, pois assim que estacionou próximo ao hospital, ele abriu a porta do carona e me estendeu a mão. Seu sorriso era doce, apesar dos traços de preocupação que eu já identificava. Senti-me péssima!

− Sinto muito por estragar nosso encontro − ele disse enquanto caminhávamos de mãos dadas pelo hospital. − Assim que tudo se ajeitar, prometo recompensá-la − encarei nossas mãos entrelaçadas e tentei não pensar demais sobre o assunto. Parecíamos um casal... O tipo de casal que tem intimidade o suficiente para enfrentar problemas de mãos dadas. Droga!

− Não se preocupe com isso − tentei dizer sem gaguejar ou vomitar ou gritar. − Mas talvez eu não deva entrar... É a sua família e eu sou só uma estranha.

− Fique − ele pediu se voltando para mim por um instante. − Por favor − completou, apertando de leve minha mão entre as suas.

E o que mais eu podia fazer? Fiquei. Mesmo contra todo o meu desconforto e contra todos os alarmes que disparavam na minha mente, eu fiquei. Adentramos o quarto de Noah e eu não esperava que ele fosse tão bonito. Eu não esperava que ele fosse ficar tão desesperadamente aliviado ao ver o irmão mais velho. Os dois se abraçaram e Noah sorriu na minha direção. Apenas levantei o braço e o cumprimentei de maneira desengonçada. Ele trajava uma daquelas camisolas horríveis que os hospitais nos obrigam a vestir e ainda assim continuava lindo. Só não era mais bonito que Nico, mas talvez meu julgamento estivesse comprometido em função do tempo que temos passado juntos. Os dois conversaram baixinho, e eu me senti mal por estar ali atrapalhando tudo. Pude ouvir apenas Noah implorando para não fazer a ultrassom e tampouco a ressonância. Não entendi o motivo, mas ele queria o médico da família e não um total desconhecido. Nico e eu saímos do quarto e do lado de fora tivemos uma conversa com o médico que o atendera.

− Doutor, por favor. O médico do Noah pode cuidar disso. Ele está viajando, mas voltará na segunda. Você não pode dar alta ao meu irmão? − eram só alguns exames, eu não entendia o motivo de tanta resistência.

− Sim, eu posso dar alta a ele. Desde que vocês assinem um termo tirando a responsabilidade do hospital caso ele piore. Ou morra.

− Caso ele morra? − perguntei, de repente sendo atingida por uma náusea sufocante. − Nico, convença-o a fazer esses exames, e se... − ele me interrompeu, mas não sendo grosseiro.

− Nós assinaremos o termo − declarou e eu me perguntei qual era o problema deles. O médico havia falado em morte. Eram só alguns exames indolores...

Assim que o médico saiu, Nico se voltou para mim com um ar sério. Eu dava tudo para não estar ali... Eu odiava hospitais e eu odiava estar no meio de crises familiares. Ele me abraçou e sussurrou contra o meu ouvido.

− Quero te contar uma coisa, mas preciso que me prometa que manterá segredo − eu apenas assenti enquanto ele me embalava naquele abraço aconchegante. Fiquei triste quando ele, o abraço, acabou. Nico me olhou nos olhos e respirou fundo.

− Noah não quer fazer os exames com um médico desconhecido, pois isso revelaria sua condição. Ele precisaria dar centenas de explicações e eu sei o quanto isso o machuca.

− De que condição estamos falando, exatamente? − perguntei curiosa e com uma sobrancelha erguida.

− Noah sofre de transtorno de identidade de gênero. Ele é um homem, mas nasceu uma menina.

E subitamente eu não soube mais o que falar. 

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Sei que devia ter postado ontem, mas como disse a vocês, minha semana está uma LOUCURA! Mil desculpas pelo atraso... Espero que gostem do novo capítulo e já estou ávida por ler seus comentários ♥ 

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