14. Meu guardião. (Jade)

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Eu sou uma vaca. Olhei para o teto do hospital, deixando duas lágrimas rolarem de cada lado do rosto frias. Funguei. Não sou uma vaquinha linda de presépio ou simpática figura em caixas de leite sorrindo. Vacas são fofas. Eu sou uma cobra, uma víbora, alguém que mata o sentimento das pessoas. Sei lá, me sinto um monstro. De repente, eu queria me desmaterializar e reaparecer na minha cama do quarto com a cabeça de baixo do edredom e me xingar muito onde ninguém me veria ou ouviria.

Desliguei meu celular. Ele seria ótimo para me entreter se eu fosse uma pessoa anônima e, não, o assunto do momento que ilustrava memes, textos de blogs e fotos no insta gram dos outros. E sabe por que estou pior? Porque o assunto central da foto não sou eu, mas, alguém que não merecia ser falado agora: Mike. Já há fotos rolando com comparações de que "com um assessor desses eu não poderia tê-lo traído com um ator magrelo". (Nem mesmo respeitam o meu amigo morto). Estão levantando uma história enorme de que Mike e eu tínhamos um profundo relacionamento, quando, na verdade, eu nem sei direito como chamar aquela agarração.

Eu tenho vontade de gritar que o macho gostoso que estão endeusando agora era para mim um gay até uns dias atrás. Ok, eu já gostava dele antes de saber que não era gay e não podia ter brincado de fazer ciúmes com meu amigo de cena. É claro que cairia na boca do povo.

Meu amigo está morto e isso é chocante. Não consigo processar. Não dá pra imaginar que não terá ninguém para finalizar o filme comigo. Não terá filme! Eu sei que isso não tem relevância agora diante da sua morte...

Fecho os olhos, minha cabeça está cansada de pensar e meu coração está precisando tanto de conforto. Suspirei.

A porta abriu e mamãe entrou seguida de um Mike sério. Como ele está aguentando ser zoado de corno na internet dessa forma? Está fazendo isso por mim ou pelo trabalho? Se eu no seu lugar estivesse sendo piada por ser traída acho que nunca mais olharia para ele. Sim, eu sou dessas.

— Papai foi tomar um café... — comentei e mamãe acariciou meus cabelos e sorriu docemente com tanto amor.

— Se importa se eu for também? — pediu e aquela era uma reação incomum. Café nem fazia bem para sua gastrite!

Ela piscou e saiu, deixando Mike a sós comigo. Entendi que aquele era algum código para "nos acertarmos".

— Ãnh... — Ele chamou minha atenção quando mamãe fechou a porta. Eu levantei os olhos, mas desviou os seus para se concentrar. Era novo pra ter a certeza agora de que sentia atração só por mim: uma mulher. — Você sairá amanhã cedo. Já trouxe sua roupa e suas coisas. — falou apontando para a mala. Vamos fazer seu cabelo e maquiagem e precisará enfrentar a saída... — começou a explicar.

— Sem chance de eu sair pelos fundos?

— É assim que enfrenta a vida? Saindo pelos fundos?

Nem pisquei, chocada com sua forma fria. Mas, acho que ele cobrava de mim a mesma força que estava tendo agora. Era como se dissesse "Eu estou sendo piada e você vai sair de fininho numa boa?".

— Acho que não percebeu, isso é uma cama de hospital. Eu podia estar morta e isso significa algo pra você?— retruquei.

— Eu não vou cair na sua manha — cortou-me duro, como se tudo que eu tivesse feito até hoje fosse ser uma garotinha chata, manhosa e cheia de vontades para ele cuidar. Fui?

De repente, eu não aguentei mais de tudo aquilo: de me sentir culpada, de ser ridicularizada e julgada por ter traído o mais novo Don Juan apaixonado da sociedade, de ser a atriz sem caráter e fraca. Sim, isso eu podia: eu podia ser fraca. Então, chorei. Não foi para provocá-lo ou testá-lo, mas, por mim. Eu precisava muito chorar.

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