1.2 CONFRONTO

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- Ô, novinha! Vem aqui! - Sai do meu sonho para ouvir aquelas palavras nojentas do velho mais escroto que existia naquele lugar.

Era assim, todo começo de mês. Ele recebia a maldita pensão e gastava toda a mísera grana bebendo no bar. Minha mãe dizia que eu devia agradar todos esses velhos e bêbados que gastavam o dinheiro em nosso bar porque ela melhor que o dinheiro deles fosse nosso. Então, lá seguia eu, ouvindo cantada de velhos e bêbados e, as vezes, dos dois.

Arrastei-me até a mesa que ele dividia com mais dois amigos, os três estavam assistindo Big Brother Brasil no pay-per-view da TV do bar, onde estava rolando uma festa.

Quem dera eu estar numa festa.

Revirei os olhos e abri o meu melhor sorriso falso.

- Boa noite - murmurei. - O que desejam?

O velho abriu seu sorriso com dentes faltando e passou a língua pelos lábios e eu quase vomitei. Tive que segurar a ânsia com o mesmo sorriso no rosto, que se alargou com o deboche em minha expressão.

- Queria era me enfiar nessas tuas pernas, morena - ele soltou e riu, seus amigos velhos e idiotas o acompanharam. - Mas me traga mais umas três loiras primeiro.

Respirei fundo e empurrei meus ombros para trás na intenção de relaxar minhas costas, enquanto me virava de volta ao balcão para pegar as cervejas.

As vezes, no meio da noite, quando eu gastava minhas horas de sono trabalhando no bar, eu rezava. Era até mesmo esquisito porque eu nunca ia à igreja e nem seguia nenhuma religião, mas eu gostava de fechar os olhos e pedir à Deus que me ajudasse e me tirasse daquele lugar, desse algum sentido para a minha vida medíocre e confusa.

Eu só queria ajuda, alguma luz, alguma oportunidade e eu me debandaria dali. Para bem longe. Eu não me importava em trabalhar em qualquer coisa que me oferecessem, contanto que eu pudesse me ver livre daqueles velhos e de todas as armas, além da minha mãe, sempre tão restritiva.

Naquele momento, enquanto carregava as cervejas para a mesa do estúpido do velho bêbado, entoei uma prece mental por paciência. Nem pedi nada especificamente, apenas um pouco de paciência para não abrir aquela latinha e jogar todo o liquido no velho e em seus amigos.

Agrade-os. Disse a voz em minha mente.

Coloquei as três latinhas em cima da mesa e me curvei, deixando-os ter uma visão do meu decote, que não passou desapercebido por nenhum deles. Não houve discrição alguma, todos os três viraram os olhares para os meus seios e eu abri um sorriso delicado, tentando fingir que estava tudo bem ser objetificada daquela forma.

- Mais alguma coisa, senhores? - perguntei.

Um delas roçou a mão em meu seio ao pegar a latinha de cerveja e eu fingi não notar, mas ganhei uma nota de cinqüenta reais, o que era bem mais do que aquelas cervejas custavam. Caminhei para o caixa e troquei a nota, guardando um pouco mais que trinta reais dentro do meu shorts. O que um sorriso e um decote não faziam?

Vi um grupo de rapazes entrar no bar, alguns deles armados, e me abaixei instantaneamente, fingindo arrumar as latas de refrigerante e cerveja dentro do balcão refrigerado.

Havia algo a ser dito sobre isso. Não importa se você cresceu em favela, se tem amigos bandidos e se vê armas quase todos os dias da sua vida, a sensação de pavor nunca se vai. Há sempre o pensamento amedrontador de uma daquelas coisas disparar acidentalmente ou, simplesmente, um daqueles caras estar doido demais para atirar sem um motivo aparente.

Eu odiava aquela sensação.

- Olá? - ouvi uma voz grossa chamando.

Respirei fundo e endireitei-me, ficando de pé e encarando um homem negro vagamente familiar. Minhas bochechas queimaram sem a minha permissão quando minha mente declarou um uau ao físico dele. Ele era uns vinte centímetros mais alto que eu, de ombros largos e braços grossos, mas sem muita definição. Os olhos era de um tom estonteante que eu só tinha visto uma vez em minha vida - um castanho mel meio esverdeado, delineado por grossas e definidas sobrancelhas. Para completar meu estado patético de admiração, ele abriu um sorriso para mim, exibindo seus dentes perfeitos e brancos.

Suspirei.

Oh, céus.

- Nossa - ele disse.

Minhas bochechas queimaram ainda mais, vendo o seu olhar sair de meu rosto e descer até onde o balcão permitia que ele visse. Fechei meus olhos e respirei fundo, tentando não entrar em pânico.

Eu tinha algumas coisas engraçadas. Era ok velhos bêbados me tratarem como objeto se me dessem uns trocados a mais, mas eu ficava zangado quando caras em potencial me tratavam assim. E eu acabava me irritando com facilidade.

Não queria dinheiro de caras em potencial. O que eu queria era atenção, carinho, talvez. Alguém que me tratasse como especial, não como um pedaço de carne.

- Posso ajudar? - perguntei.

- Claro - disse. E lá estava aquele sorriso, ainda mais aberto, mas agora caía mais para um lado que para o outro, demonstrando intenções.

Paciência, Pai. Por favor. Dê-me paciência.

Olhei para trás dele e notei que tinha um grupo de três rapazes parados à porta do bar. Dois deles estavam com pistolas e um segurava um radinho. Estranho, pensei. Eram amigos do Pepê, mas eu não me recordava do rapaz à minha frente. Olhei-o, novamente, desta vez, não mais equivocada pela sua beleza enternecedora. Ele não portava armas, o que fez meu coração se acalmar um pouco.

- Pode falar - insisti ao perceber que ele não pretendia continuar.

Ele finalmente desviou o olhar de mim e o colocou no balcão dos refrigerados. Pareceu analisar com cuidado as opções, antes de apontar para um latão.

- Quero cinco - disse. - E você pode vir junto, com mais um desses, se quiser.

Senti um comichão desesperado subir pela minha barriga e apertar meu peito de forma sufocaste. Tirei as três cervejas e coloquei-as sobre o balcão com pressa e de qualquer jeito, batendo com a última no vidro, deixando o som ecoar.

- Sou menor de idade, senhor - eu lhe disse, entre dentes.

- Certo - ele riu. - Pode pegar um refri, então.

Eu sabia que ele não estava falando nada demais, mas seu olhar incisivo e seus sorrisos arteiros estavam me deixando para lá de irada.

Odiava me envolver de qualquer forma perigosa com qualquer cara, ainda mais um que parecia ter ligação direta com o tráfico. Não me importava de beijar um aqui ou ali e me divertir com uma penca deles, mas se corria algum risco de eu me envolver emocionalmente com qualquer um deles, eu era a primeira a soltar meia dúzia de palavrões e pular fora. Gostar de alguém sempre acabava em merda.

E aquele sorriso e aqueles olhos me lembravam alguém que mexera comigo em uma época que eu não havia aprendido essa lição ainda.

- Não, obrigada - murmurei. E completei, antes que restasse alguma dúvida: - Não estou interessada.

Ele estalou os lábios e deixou o dinheiro sobre o balcão, pegando as latinhas com destreza e equilíbrio.

- Uma pena, novinha - disse, sorrindo. - Se mudar de ideia…

Meneou a cabeça e apontou para o grupo de amigos, que conversava, munidos de armas e piadinhas estúpidas.

- Não mudarei, mas obrigada pelo convite - falei. - E volte sempre - acrescentei, com um sorriso debochado.

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