Capítulo 04 - Um pássaro no picadeiro

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Quis me aproximar e dizer alguma palavra, todas elas se concentraram em minha garganta obstruindo uma parte do meu ar que me impediu de mover-me na direção da mulher.

Fiquei parada. E essa ação decorreu por tanto que foi o da maioria das pessoas comemorarem a novidade e se dispersarem novamente pelo circo.

— Terra chamando B1 — Venturotti convidou-me a terra passando os dedos por frente dos meus olhos e a sorri. Por um segundo o encontro dos tempos pareceu me conduzir até fora da minha própria órbita, mas agora a realidade estava de volta com força total, pura e expressa: Após a saída da maioria Daniel permanecia em conversa com Rafaella, mas seu olhar periférico parecia encontrar minha figura. Era um aviso de não se aproxime...

E assim o fiz até porque não sabia como simplesmente abordar a mulher e perguntar que giro tão absurdo acometeu seu mundo para que saísse de um dos circos mais magníficos da França para terminar no... Bem... No simples Magique.

Não que esse circo fosse ruim, não era isso, mas estava longe de comportar um espetáculo grandioso quanto o que eu presenciei em minha infância, portanto, a presença de Rafaella era mais que ilógica a não ser que...

E a suspensão da palavra foi o que propiciou o conflito entre a curiosidade e o pânico de questionar aquela mulher cujo semblante parecia sério por todos os dias que passou aqui. Fazia já cinco. E como eu sabia? Porque há cinco dias eu estive evitando estar em sua presença com o temor da curiosidade ultrapassar meu bom senso.

O olhar de Rafaella era gélido. Daniel não queria que eu sequer a olhasse e eu não tinha ideia da razão, assim, o melhor a ser feito era somente perceber por onde estava e fazer o caminho inverso. Tive sucesso nisso por cinco dias.

Mas no sexto acabei por ser pega na armadilha do destino. Porque justo no número que representa a paz e a harmonia entrei sem aviso no picadeiro no meio de uma tarde de brisa fresca em Valensole, cidade próxima a Marseille. As árvores cantavam seu balançar e as flores espalhavam seu doce aroma, beijando minhas bochechas e os sinais evidentes que compunham meus passos e minha distração. Eu reparava no céu, na imagem do verde contornando o anfiteatro quase perfeitamente montado, exceto pelo detalhe que insisti em concertar naquela sexta-feira.

Me incomodava e não era de hoje os rasgos evidentes que permitiam a entrada de fios de luz bem no meio do picadeiro e em razão disso estava munida do necessário para um conserto pouquíssimo prático que envolvia uma subida perigosa.

Se eu fosse mais preditiva perceberia que todo aquele ímpeto bobo não passava de um magnetismo do destino ácido e cheios de nuances punitivos que tomou seu turno para descontar todos os meus rodeios, porém nunca fora das que detinha uma boa relação com a minha intuição. Eu era do tipo que levava um casaco argumentando a chegada de uma tempestade só para ver o sol queimar minha testa.

Minha dispersão me protegia como o acaso em todos os dias. E com meus passos incertos, assoviando uma música antiga ajeitei minha boina adentrando a tela gigante que cobria as arquibancadas e a serragem no chão. Cessei meu caminhar no centro do anfiteatro.

Ali, um pássaro.

Um pássaro preso ao chão. Suas asas, muito fracas, impedindo um voo completo na direção do seu destino inesperado. A tristeza, profunda e expressa nos olhos verdes da cor da natureza apagados pela impossibilidade de sair do chão.

A dor infindável. Inúmeras tentativas de alçar-se acompanhadas de quedas constantes que mantinham seus joelhos machucados e transformavam suas penas num espetáculo cujo sofrimento era o protagonista e sua trilha sonora era a sonata n• 14 de Ludwig Van Beethoven.

Quando as luzes se apagam Where stories live. Discover now