PRÓLOGO

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Quando pensamos no terror clássico certamente nossa imaginação pode acabar passeando pelas histórias de terror de casas mal assombradas onde habitam vampiros como o clássico Conde Drácula, ou cientistas loucos como o temível Doutor Frankenstein, bem como fantasmas e outros tipos de criaturas assustadoras.

O que apenas os leitores mais ávidos percebem é que essas histórias que datam geralmente da virada do Século XIX usam arquétipos de uma sociedade em movimento que se transformava radicalmente durante às diversas revoluções industriais e científicas que aconteciam nessa época e que viam tradições antigas morrerem como era o caso de estilos de governo como a monarquia, levando junto uma corte composta por famílias ricas que viam sua fortuna decair.

Por isso não era difícil nessa época se ver mansões abandonadas devido a falência de seus antigos donos, provocando o medo das pessoas que passavam perto delas, ou então também era comum se ver com maus olhos famílias ricas que insistiam em manter estilos arquitetônicos, ou hábitos de uma cultura anterior que tentava ser esquecida pelas pessoas do novo século que surgia.

Porém, quando estas famílias tinham origem estrangeira e ainda mantinham os costumes de sua terra natal, a mística que era composta por uma mistura de medo e preconceito se tornava ainda mais intensa. É importante lembrar que nesta época, apesar de todas as revoluções científicas e sociais que o mundo vivia, o preconceito ainda era extremamente marcante, não que este seja um problema considerado como resolvido no Século XXI, mas ao menos não temos mais absurdos como zoológicos com pessoas negras convivendo na mesma jaula que macacos.

No entanto, ainda que cercados de uma aura de medo e preconceito, essas pessoas ainda assim eram retratadas como figuras de poder, afinal de contas tanto Frankenstein como Drácula eram homens brancos. Mas quando culturas africanas ou não eurocêntricas eram representadas nessas histórias, e aqui não falamos apenas de pessoas negras, esses personagens, mesmo que muito poderosos, eram retratados com um ar de serem exóticos ou selvagens.

O presente texto busca subverter essa visão colocando o poder sobrenatural na mão de um homem negro culto que entende da cultura africana e seus poderes, além de emular o estilo de escrita da época tendo como referências autores como Edgar Alan Poe e até mesmo o notoriamente racista Lovecraft.

Devemos frisar no entanto que deve ficar claro que é um ato de protesto subverter uma estilo de arte que já retratou a nós, pessoas negras, como sendo selvagens ao nos apropriarmos dos arquétipos que os próprios autores da época criaram.

14 de dezembro de 2020.

Tiago da Silva Cabral.

O conde e o psiquiatraOnde histórias criam vida. Descubra agora