Capítulo 02 - Branco e Augusto

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— E agora uma música da artista principal e da artista secundária — Anunciei apontando primeiro a mim e depois a Júlia Maria que me olhou com repreensão.

— Quem compôs a música? — Questionou batendo sua peruca rosada de um lado para o outro.

— Você — Disse eu, Maria Júlia, olhando minhas unhas com inocência.

— Quem tocará? — Continuou circulando-me com passos fortes que causavam um barulho de pum em seu sapato. As crianças da primeira fileira não conseguiam conter o seu riso.

— Você — Proferi outra vez começando a andar em círculos como ela até que se desse conta de que não estava rodeando ninguém. Júlia Maria parou e eu também o fiz. A palhaça levantou a mão e eu repeti o mesmo movimento me tornando seu reflexo até o segundo em que pisou com força no meu sapato acionando a rinoplastia e o retornado som de pum.

— Você? — Perguntei a menina de cabelos dourados da premeria fila e ela fez que não mostrando os dois dentinhos rindo e negando — A Júlia Maria? — Questionei e a loirinha apontou causando risadas pela espontaneidade.

O momento que antecedia a música era a oportunidade de envolver as crianças antes de trazer algo mais pícaro e voltado para os adultos.

— Você — Falou me puxando pela gola. No momento em que isso acontece a calça cai revelando uma cueca samba-canção levantada até o umbigo. Era como uma asa delta de voo interrompido cuja as pernas magrelas não eram uma turbina suficientemente potente —  Quem é a artista principal? — Júlia Maria terminou por fim induzindo a resposta depois da interminável sequência de "vocês".

— Eu — E a quebra do raciocínio óbvio outra vez faz o público reagir com divertimento provocando a doce sensação de expansão em meu peito que sempre aparecia quando Bianca saia sem pressa da cena e dava lugar a desajeitada Maria Júlia, uma típica Augusto.

— Não tem como com você Maria Júlia! — Apontou me soltando enquanto dou cambalhotas para trás antes de cair no picadeiro — Pegue o terninho que eu tomarei o violão — Adiantou saindo das luzes e quase sai também. Colocando um pé para fora e deixando um dentro, mas depois colocando outra vez os dois para dentro e virando de uma maneira cômica.

— Quando eu voltar quero aplausos calorosos e sorrisos genuínos. Vamos mostrar para Júlia Maria as minhas maneiras. Eu entro na minha passada bem afeiçoada — Disse fingindo cuspir nas mãos e passando nas sobrancelhas. Um homem na minha frente se espanta — Pensou que eu ia passar no cabelo que nem você? Pensou errado — Brinquei com o homem de cabelo para trás e os presentes caem na gargalhada pela piada improvisada. Parte da magia era aproveitar o que se apresentava no momento — E quando eu parar e der piscadinha e uma rebolandinha — Continuei e com o fim da frase acabei mexendo os quadris de um jeito desajustado com as mãozinhas apoiadas nele. A calça quase cai de novo, mas eu segurei — Vocês riem e batem palmas. Vamos tentar? — Convidei saindo das luzes depois do sim e retornando no meu trote maroto, dando uma reboladinha no fim. Como acordado vem as duas reações.

— Eu não gosto de falsidade não viu, Platéia? — Cutuquei fazendo uma careta de desdém e fui saindo do holofote na direção da platéia, parando dessa vez ao lado do filho do Cabo da cidade.

— Me dá essa cadeira? — Pedi ao menino de olhos negros e cabelos espessos. Suas bochechas infantis estavam encurvadas numa meia lua perfeita que indicava seu perfeito encantamento. Lembrei de mim mesma e suspirei fundo tentando manter-me Maria Júlia.

O olhar de uma criança é a pura e genuína face da vocação. Quando um pequeno olha com admiração nos seus olhos enquanto você faz o que ama se sabe que é o caminho correto e de repente acontece o reencontro com o sonho. Num segundo me reencontrei com o meu, porém não em 1918, mas dez anos depois.

Quando as luzes se apagam Where stories live. Discover now