Capítulo 01 - O espetáculo de olhar o passado e ver o presente

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Encarei o rosto ainda limpo. Recém lavado e acariciado pelas partículas de sabão percebi cada ausência de rugas no meu rosto ainda jovem. Dentro de pouco, cerca de dez segundos, pincéis e cores contornariam o branco de minha pele transformando-a num espetáculo de alegria em vermelho, branco, verde e azul (os últimos para as pálpebras, já que achava aqueles tons transmissores de uma paz e tranquilidade que eu gostava de levar a partir do cômico).

Quando alguém ri é como se o mundo ficasse levemente melhor, como se uma estrela brilhasse mais forte, como se a maldade fosse mera questão de tempo até se extinguir. Quando alguém ri o coração se abre por um segundo, a pena se esquece e a criança toma conta nem que seja por um único segundo. E então tudo é puro e bom.

E por dedicar sorrisos eu encontrei a razão na minha vida. Não fazendo do inimaginável possível, da mesma forma que meus colegas, mas fazendo do simples improvável, pois mesmo sabendo dos truques bobos de um palhaço ainda sim o espectador acaba por gargalhar como não pensou.

O humor é uma terapia mais em conta. E foi sabendo disso que salvei inúmeros momentos de desconhecidos e até a mim mesma com essa ferramenta.

Respirei fundo iniciando a maquiagem com um coração desenhado na bochecha esquerda, transitando finalmente de Bianca a Maria Júlia enquanto a luz falhada do lampião me dizia das condições nem sempre favoráveis, mas que seria necessário permanecer insistindo se para viver um sonho.

E esse era o meu. Ver os olhos que me fitavam desde as cadeiras no perímetro do picadeiro se apertarem num som inconfundível do riso. A maravilha, o anseio por mais mesmo estando no momento e os aplausos ao fim.

Podia lembrar o exato momento em minha vida que senti o coração bater mais forte para o caminho de minha vida. Meu coração ainda ingênuo não conseguiu deixar de acelerar ao pisar no circo.

Suponho que isso seria impossível.

Conforme o pincel beijou meus olhos cerrados me permiti finalmente embarcar novamente nas lembranças que aqui me trouxeram, no preciso segundo em que tudo se perdera ao meu redor, estando eu, a tinta e a lembrança...

Paris, 24 de dezembro de 1918.

A noite gélida da capital parisiense agrediu meu corpo sem qualquer leveza. Outra vez, mas principalmente naquele dia, me senti o resultado esquecido de uma briga que nunca foi minha.

Era natal. As pessoas corriam com sorrisos estampados em sua face falando sobre Jesus e prometendo ser melhores por aquele que nos deu a vida, mas a verdade era que para mim seus anseios não faziam diferença.

Não quando a paz e a bondade que saiam dos seus lábios não tornavam suas mãos benevolentes o suficiente para que fossem estendidas para alguém como eu.

Há pelo menos quatro anos eu era o efeito colateral visível e ignorado da Guerra das Guerras. Meu pai, homem em plena idade fora recrutado e não teve como se negar, morrendo três meses após entrar em batalha pelo lado dos Aliados. Minha mãe, sozinha no mundo, enlouqueceu e suicidou-se apenas dois anos depois pela perda rasgada do amor de sua vida, deixando a mim, uma criança de oito anos, sozinha e largada pelas ruas de Paris pronta para ser acometida para as maiores desgraças.

Por muito os culpei. A Guerra, aos aliados e até meus pais, mas a vida passando dura por minha face me impediu de levar comigo tanto rancor. Morrer com o coração cheio de ódio era a última coisa que eu pensei que precisava quando o exército alemão ameaçou dizimar Paris inteiramente.

Prometi não odiar as pessoas o que, no entanto, não me impediu de odiar sua hipocrisia. Passaram tempos se atacando como desvairadas, mas no ano do fim da guerra estavam confraternizando como se nada tivesse acontecido pregando uma caridade que nunca existiu.

Quando as luzes se apagam Where stories live. Discover now