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yuasashin
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Aug 07, 2009
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Universidade de Resultados

Universidade de resultados


A atual crise no ensino superior é resultado de sua adequação às exigências de acumulação de capital

03/08/2009

Ricardo Musse

Uma das peculiaridades da instituição universitária é sua situação de crise quase permanente. Essa recorrência pode ser atribuída tanto à sua organização, uma composição heterogênea e conflituosa de forças e interesses, como à sua condição de caixa de ressonância das tensões e contradições da sociedade. Nesse sentido, algumas observações sobre a especificidade da crise atual não parecem destituídas de interesse, mesmo para além de seus muros, pois talvez ajudem a iluminar aspectos decisivos da contemporaneidade.


"Crise da ciência europeia"

À primeira vista, a situação atual repõe e atualiza o "conflito das faculdades", título de um livro de Kant (1798) que se tornou um marco da discussão e implementação do projeto moderno de universidade. A disputa entre a recém-criada faculdade de filosofia e as tradicionais faculdades de teologia, medicina e direito não só dizia respeito à autonomia acadêmica, incrementada gradualmente por meio de um combate incessante à heteronomia da autoridade constituída e da transcendência religiosa, mas também remetia a uma controvérsia acerca do modelo educacional.

Tratava-se de decidir entre privilegiar a capacitação para o exercício profissional ou a formação moral e intelectual do indivíduo, dicotomia expressa na língua alemã pelos termos Erziehung e Bildung - mas também presente na cultura francesa por meio da distinção disseminada pelos iluministas entre instrução e educação.

A solução conciliatória proposta por Kant, a prevalência de cada faculdade em seu domínio, tornou-se um dos pilares da universidade moderna após a sua adoção em Berlim por Humboldt. A propagação desse modelo em quase todo o Ocidente
Foto: Creative Commons
Oxford: Uma das primeiras universidades modernas
surgidas na segunda metade do séc. 18
permitiu que Max Weber, nas duas primeiras décadas do século passado, apresentasse o resultado do processo multissecular de intelectualização e racionalização - o desencantamento do mundo - como um conflito insolúvel entre profissões ou vocações, um antagonismo entre as esferas autônomas da religião, da ciência, da arte, da política etc.

Na mesma época em que Weber afirmava o "politeísmo de valores", vozes dissonantes, à direita e à esquerda, destacavam outras incompatibilidades: a dissociação entre o homem culto e o especialista, na terminologia de Ortega y Gasset; a tripartição entre literatura, ciência e sociologia - "as três culturas", segundo a fórmula de Wolf Lepenies em livro homônimo, no qual desdobra a distinção clássica de W. Dilthey entre "ciências do espírito" e "ciências naturais".

Desde então, o debate sobre o sentido e o destino da universidade permaneceu atrelado às controvérsias acerca da "crise da ciência europeia", expressão cunhada por E. Husserl para nomear as discrepâncias e interpenetrações indevidas entre a cultura filosófica e a científica.

Husserl tinha como alvo o predomínio da perspectiva científica, uma hegemonia que abrangia do senso comum ao ensino universitário, além de produzir distorções nas outras esferas, especialmente na filosofia.

Husserl retoma, à sua maneira, um veio já aberto por Weber. Este alertara, seguindo os ensinamentos de Nietzsche, que a ciência não é capaz de fornecer um sentido para a existência humana, "pois não consegue responder às indagações que realmente interessam - que devemos fazer? Como devemos viver?". Adorno e Horkheimer, em Dialética do esclarecimento (1944-1947), aprofundaram, por sua vez, as determinações dos limites da razão científica, destacando que sua função prioritária consiste na autoconservação e na dominação da natureza externa e interna.

Essa discussão, o embate entre uma razão mais abrangente, "filosófica", e a razão científica, "positivista", prosseguiu no pós-guerra. Seus dois momentos mais interessantes situam-se nos anos 1960 com A controvérsia sobre o positivismo na sociologia alemã - capitaneada por Karl Popper e Theodor Adorno - e a querela do estruturalismo francês sobre o estatuto das "ciências humanas".

O debate intelectual, entretanto, já se apresentava como mera forma de resistência, posto que o destino da universidade e de seu projeto civilizatório fora selado no pós-guerra pelo triunfo mundial, em suas várias modalidades, do "capitalismo de Estado". Sua emergência e predomínio promoveram uma mudança substancial na função e no estatuto da universidade.

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